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As bromélias e a teia de aranha
Hélio Guilhardi & Patrícia Piazzon Queiróz


As bromélias e a teia de aranha - Hélio Guilhardi & Patrícia Piazzon Queiróz

- Quantas bromélias juntas! Formam um canteiro natural sobre a rocha.
- Olhe essa teia de aranha entre as folhas... 
- Nem a tinha notado... Interessante: olhei e não a vi...faltou alguma contingência para me fazer vê-la. 
- Minha frase criou a contingência. Agora você a vê. 
- Assim , no dia a dia, fica claro como o comportamento
- de ver no caso
- é controlado. 
- Os cognitivistas diriam que você não " prestou atenção", por isso não viu a teia. 
- Nesse caso, "prestar atenção" antecederia ver? Seria um pré-requisito? 
- Para os cognitivistas sim, No entanto, "prestar atenção", definido como olhar para algo (teia) e nomeá-lo ("teia de aranha") é comportamento.
- Mas, então, qual foi a contingência para eu ter notado as bromélias já que ninguém "chamou minha atenção" para eu vê-las? 
- Neste caso, a contingência está na sua história de vida. Em algum momento, alguém lhe mostrou uma determinada planta (SD) e lhe disse "Isto é uma bromélia" (SD verbal com função de modelo para nomeação). A partir daí, quando você diante de um a bromélia verbalizou "bromélia" (R verbal), sua comunidade verbal a consequenciou com algum tipo de reforço positivo ('Muito bem", " Isso mesmo", " Vê como todas as bromélias são lindas?", etc.). 
- Mas, se aprendi em casa o que é uma bromélia, como a reconheço nas rochas?
- Se o treino discriminativo foi repetido com diferentes tipos de bromélias, em diferentes circunstâncias, você, provavelmente, formou o "conceito bromélia". Isto é, passou a ser capaz de dizer "bromélia" para muitos tipos diferentes de planta, todas bromélias generalizou dentro de uma classe de estímulos ( bromélias grandes ou pequenas, floridas ou sem flores, ao vivo ou em fotos, etc.). Simultaneamente, discriminou entre classes de estímulos (não diz " bromélia" diante de uma avenca, ou de uma samambaia, etc.). Tendo formado o "conceito bromélia", portanto, você está habilitada a identificá-la(um vegetal bromélia tem função de SD para você) e a nomeá-la em qualquer ambiente.
- Se esse treino ocorreu no passado, onde ficou armazenado para eu usá-lo no presente?
- A idéia de "armazenamento" é cognitivista. Aquilo que foi aprendido não fica "guardado" em nenhum arquivo psicológico, de onde é retirado quando necessário. 
- Mas, eu nem estava pensando em bromélias e quando as vi imediatamente as reconheci. 
- O "conceito bromélia" está no organismo. Tudo que é aprendido (passou pela condição indispensável de ter sido exposto a um contingência de reforçamento) passa a fazer parte do organismo. Assim, organismo é o conjunto formado pelo equipamento biológico e pelo repertório de comportamentos adquiridos.
- Entendo. Uma pessoa que nunca aprendeu o que é "bromélia" não poderia nomeá-la, mesmo a tendo diante dos olhos. Não teria pré-requisitos para vê-la. O que não entendo, então é, o papel dos olhos? Eu não vejo com os meus olhos? 
- É uma questão interessante. A resposta é não. Os olhos, enquanto equipamento biológico, são pré-requisitos para um comportamento de "ver", mas não bastam para ver. O que faz um organismo ver, através ou com os olhos, são as contingências que produzem uma discriminação visual. 
- Como assim? 
- Suponha que você olhe para uma lâmina com sangue através das lentes de um microscópio antes de uma aula prática sobre células sangüíneas. Embora, os diferentes tipo de células sangüíneas estejam lá você não conseguirá distingui-las. Após a aula, em que lhe foram ensinados os conceitos de eritrócitos, eosinófilos, basófilos, plaquetas, etc. você "verá" os diferentes tipos de células. Foram as contingências (produzidas pela aula) que lhe ensinaram a ver aquilo que você não via antes de ter os conceitos, embora as células estivessem o tempo todo diante de seus olhos. Assim, são necessários os olhos (parte do organismo) e as contingências ambientais para ocorrer o comportamento de ver. 
- Acho que entendi. Preciso pensar mais sobre isso... Mas, se fui ensinada a ter o "conceito de bromélia", ou seja, se sou, digamos, "um organismo bromeliado", por que não fico dizendo "bromélia" o tempo todo? 
- Porque o "conceito bromélia" está no organismo e também nas contingências ambientais. O "organismo bromeliado", como você disse (aquele que incorporou o conceito de bromélia em função de sua história de vida) está apto para nomeá-la, mas precisa ser exposto a contingências que evoquem, num determinado momento ou contexto, a resposta verbal para, de fato, nomeá-la. Assim, poderia ser a visão de um bromélia (SD), a minha presença (um ouvinte com função de SD e com provável função de SD) como aconteceu no episódio. Poderia ter sido outra contingência, por exemplo, alguém perguntar "O que é uma bromélia?", "Quem viu uma bromélia?", etc. 
- Mas, houve um momento no nosso percurso em que sem ter visto nenhuma bromélia ou "pensei" nela. 
- Pensou em que exatamente? 
- Pensei que nestas montanhas, bem como poderíamos encontrar bromélias...
- Seu pensamento estava, neste exemplo, sob controle do ambiente físico: um local onde há certa probabilidade de existirem bromélias. (É pouco provável que você pensasse em bromélias no meio do oceano, por ex., exceto sobre circunstâncias arbitrárias especiais, como ouvir alguém dizendo "Estou com vontade de comer abacaxi"...). É um exemplo de generalização de estímulos. A probabilidade de pensar em bromélia depende da força da resposta: contingências sob as quais o comportamento foi instalado e o grau de semelhança ente os estímulos presentes e aqueles sob os quais a resposta foi condicionada. 
- Você tem razão... Eu já havia visto bromélias em uma região semelhante a esta numa outra viagem que fiz. Agora, o que me chamou a atenção na sua explicação foi que você tratou o meu pensamento como se fosse um outro comportamento qualquer. 
- Exato. Pensar é comportar-se. O pensamento é comportamento, sujeito as mesmas leis que qualquer outro comportamento. Sua única particularidade é o acesso para observá-lo. Como se trata de um comportamento privado, sua observação só é acessível a própria pessoa que se comporta (pensa): você no caso. 
- Ainda uma coisa me deixa em dúvida... Quando você me perguntou em que exatamente eu havia pensado, dei-lhe uma resposta, mas não foi tudo. De fato, pensei que queria encontrar uma bromélia, mas além disso eu "vi" a bromélia que gostaria de encontrar. Posso até descrevê-la para você. Mas, como posso "ter visto" um planta, com sua flor vermelha, se ela não estava ali? 
- Quando você diz que "viu" alguma coisa, e neste caso você viu uma planta que não estava presente, está se referindo a uma outra classe de comportamentos encobertos, que não exatamente pensar. Usualmente, emprega-se nestes casos o verbo imaginar. Ou seja, você imaginou que estava vendo uma planta (é como se você estivesse vendo uma imagem). A concepção de ver uma imagem é também dualista: é como se existisse um objeto e uma cópia dele e em circunstâncias especiais nós vemos a cópia, a imagem. Um resquício da concepção religiosa de corpo-alma, que por sua vez se baseia na filosofia platônica do mundo das sensações e das idéias... 
- Como explicar, então, que eu "vi" a bromélia florida? A explicação seria a mesma usada para explicar o comportamento de pensar, como foi feito acima, mas agora aplicado a outra classe de comportamento: "ver na ausência do objeto visto". Assim, é necessário um SD ambiental, no caso região montanhosa, onde bromélias podem ser encontradas. Uma história passada em que existiram contingências que lhe ensinaram a discriminar (visualmente) uma bromélia com flores vermelhas e ainda ensinaram que bromélias crescem e florescem em regiões montanhosas parecidas com a que você não "veria" bromélias. A bromélia que você "viu" não está no mundo platônico das idéias, está na relação entre seu organismo e o aspecto funcional do ambiente, está nas contingências passadas e atuais.


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