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Automonitoramento do comportamento de escrever
Carlos Bohm


Automonitoramento do comportamento de escrever - Carlos Bohm

   Este artigo se concentra nas demandas oriundas de pessoas e setores para os quais o comportamento de escrever tem alta relevância, como jornalistas e suas mídias, escritores, departamentos de psicologia em órgãos públicos e empresas, e estudantes e acadêmicos em geral. Os autores de textos acadêmicos, artísticos ou profissionais às vezes apresentam algumas queixas sobre o processo de escrita: falta de motivação, falta de ideias, dificuldade para se concentrar, excesso de barulho, entre outros. O automonitoramento (AM), que é uma técnica consagrada e explicada pela ciência, pode ser empregado para facilitar todo o processo acerca do comportamento de escrever.

   Para uma compreensão a respeito do AM do comportamento de escrever é necessário entender cada conceito. AM é o comportamento de observar e registrar sistematicamente a ocorrência de algum comportamento (privado ou público) emitido pela própria pessoa e eventos ambientais associados. Muitas vezes a literatura apresenta alguns sinônimos, como registro diário, diário de atividades, diário de sintomas e auto-registro. Para Korotitsch e Nelson-Gray (1999) o AM envolve a discriminação da ocorrência do comportamento e a produção do seu registro, bem como de informações adicionais. Dois exemplos: registrar em uma planilha sintomas obsessivos-compulsivos e eventos associados; ou escrever em um diário os horários das refeições, alimentos ingeridos, sentimentos e eventos antecedentes e consequentes. Quanto ao comportamento de escrever, este consiste na complexa classe comportamental de respostas relacionadas à produção de material escrito. Outra vez dois exemplos: escrever um e-mail no computador; ou escrever uma carta à mão, no papel.

   Com o advento das tecnologias digitais na última década, surgiram novas formas de produzir registros sobre o próprio comportamento. Uma técnica antiga e simples agora ganha uma nova roupagem. Computadores, smartphones e tablets oferecem diversas opções para as pessoas se monitorarem. Pode-se registrar gastos financeiros em um aplicativo de celular. Um aluno pode fazer gráficos no excel sobre o seu rendimento escolar... São muitas as possibilidades.

   Um fenômeno interessante é a reatividade ao AM. Tal efeito indica uma alteração da frequência do comportamento, geralmente na direção desejável, ou seja, reduzindo a frequência de comportamentos inadequados e/ou aumentando a de comportamentos adequados. Essa mudança ocorre em função do registro que a pessoa faz do seu comportamento. Quanto maior o tempo de monitoramento, maior a tendência dessa mudança (Bohm & Gimenes, 2008). Alguns casos: a) uma pessoa passa a emagrecer à medida que visualiza seu gráfico de peso; b) um sujeito começa a ter uma vida financeira mais regrada e estável em função de acompanhar as planilhas e gráficos sobre suas receitas e despesas; c) um atleta aumenta seu rendimento ao verificar seu desempenho num aplicativo que conta o número de passos percorridos por dia.

   “Escrever” é controlado por estímulos antecedentes (o chefe solicita relatório; professor solicita redação; editor encomenda um artigo) e por estímulos consequentes (cumprimento da tarefa; nota alta; elogio; repercussão).

   Pode-se, assim, investigar o efeito de reatividade do AM do comportamento de escrever. Wallace e Pear (1977) indicam que muitos escritores praticam a técnica como forma de monitorar e aumentar a sua produtividade. O escritor Irving Wallace mantinha gráficos e quadros que mostravam a data em que começou cada capítulo do livro que estava escrevendo, a data em que os terminou, o número de páginas escritas por dia e notas de eventos que aconteciam durante a produção do livro e que interferiam na produção (cf. Figura 2). Wallace relatou que um quadro na parede servia como uma disciplina, “xingando-o ou encorajando-o”. Segundos os autores, outros romancistas famosos também faziam algum tipo de auto-registro, como Anthony Trollope, Arnold Bennett, Ernest Hemingway, Honoré de Balzac, Gustave Flaubert, Aldous Huxley, William Somerset Maugham, e Joseph Conrad.

   É possível registrar o comportamento de escrever de diversas formas. Precisa-se, para isso, definir a resposta (número de páginas escritas; de ofícios produzidos; de linhas; de palavras; de caracteres). Nos dias atuais o autor de um texto tem à sua disposição muito mais maneiras de definir a resposta do que na época de Wallace. Também se torna necessário definir a forma de auto-registro (um gráfico no papel; no aplicativo de celular; em uma planilha no computador). O efeito de reatividade ao AM poderá ou não ocorrer, em função de algumas variáveis, tais como: a) valoração do comportamento (adequado ou inadequado, positivo ou negativo); b) motivação para a mudança; c) esquema de registro; d) estabelecimento de objetivos, entre outros. O trabalho de Bohm e Gimenes (2008) analisa com detalhes diversas variáveis que afetam a reatividade ao AM.

   As análises realizadas neste breve artigo levam à ideia de que é possível escrever com produtividade e com menos sofrimento, pois existem técnicas, ferramentas e dispositivos que auxiliam nesse processo. Além disso, deve-se destacar que a escrita, o AM e o efeito de reatividade são específicos para cada pessoa. Por isso se torna importante avaliar e reavaliar os procedimentos e os resultados de forma contínua, em busca de um formato que melhor se adeque a cada pessoa.

Referências:
Bohm, C. H.; Gimenes, L. S. (2008). Automonitoramento como técnica terapêutica e de avalição comportamental. Revista Psicolog, v. 1, p. 88-100.

Korotitsch, W. J. Nelson-Gray, R. O. (1999). An overview of self-monitoring research in assessment and treatment. Psychological Assessment, 11 (4), 415-425.

Wallace, I. Pear, J. J. (1977). Selfcontrol techniques of famous novelists. Journal of Applied Behavior Analysis, 10 (3), 515-525.
 

 

 

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