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O impacto do Behaviorismo Radical sobre a explicação do comportamento
Tereza Maria Pires Sério, USP


O impacto do Behaviorismo Radical sobre a explicação do comportamento - Tereza Maria Pires Sério, USP

   A expressão behaviorismo radical tem, aqui, o sentido que lhe é dado por Skinner (1963/1969, 1974, por exemplo); behaviorismo radical refere-se a uma determinada posição filosófica, mais precisamente urna corrente da filosofia da ciência que estuda a psicologia enquanto área do saber científico.  Em seu artigo Behaviorism at fifity (1963/1969), é assim que Skinner apresenta esta especificação:

   Behaviorismo, com uma ênfase na última sílaba, não é o estudo científico do comportamento, mas uma filosofia da ciência preocupada com o objeto e os métodos da psicologia. (...) A questão básica não é a natureza do material do qual o mundo é feito ou se ele é feito de um ou dois materiais, mas antes as dimensões das coisas estudadas pela psicologia e os métodos pertinentes a elas. (p. 221)

   Com esta delimitação devemos ter bem claro o que esperar quando nos dispomos a estudar o behaviorismo radical; devemos encontrar respostas para duas questões básicas: a) qual o objeto de estudo da psicologia e quais as dimensões deste objeto e b) que métodos são apropriados a um objeto com tais dimensões.  A palavra chave, aqui, parece ser “dimensões”.  Do que estamos falando, quando falamos em “dimensões” do objeto de estudo da psicologia?

   No mesmo Behaviorism at Fifty (1963/1969), temos um bom esclarecimento sobre o que está envolvido quando discutimos as “dimensões” de nosso objeto de estudo.  Após traçar brevemente a história da objeção behaviorista às explicações chamadas de mentalistas, Skinner sintetiza assim esta oposição:

   Psicólogos mentalistas insistem que há (...) tipos de eventos que são unicamente acessíveis ao possuidor da pele dentro da qual eles ocorrem, mas aos quais faltam as dimensões físicas dos estímulos proprioceptivos e interoceptivos. (...) A importância atribuída a este mundo varia. Para alguns, ele é o único mundo que há.  Para outros, ele é a única parte do que pode ser diretamente conhecida.  Para outros ainda, é uma parte especial do que pode ser conhecido.  Em qualquer caso, deve ser enfrentado o problema de como alguém conhece o mundo subjetivo de outro. (p.226)

A questão da “dimensão” do objeto de estudo refere-se, então, a se este objeto tem a mesma dimensão do mundo físico ao nosso redor ou se é de uma dimensão diferente deste mundo físico, uma dimensão especial que poderia ser chamada de mental.  Junto com a questão da dimensão vem a questão da possibilidade de conhecimento deste objeto: se ele é de outra dimensão, poderia e deveria ser estudado com os métodos utilizados para estudar o mundo físico? e se ele é físico, como estudá-lo, se uma parte dele não se apresenta para nós tal como o restante do mundo físico parece se apresentar?

Novamente após traçar brevemente a história, agora das posições chamadas de behavioristas, Skinner (1963/1969) apresenta a posição característica do behaviorismo radical:

É particularmente importante que uma ciência do com comportamento enfrente o problema da privacidade.  Ela pode fazer isto sem abandonar a posição básica do behaviorismo.  A ciência freqüentemente fala sobre coisas que não pode ver ou medir. (...) Uma ciência do comportamento adequada deve considerar os eventos que ocorrem dentro da pele do organismo, não como mediadores fisiológicos do comportamento, mas como parte do próprio comportamento.  Podemos lidar com esses eventos sem assumir que eles tenham qualquer natureza especial ou que devam ser conhecidos de uma maneira especial (...) Eventos públicos e privados têm os mesmos tipos de dimensões físicas. (p.228)

A partir do que foi até aqui apresentado, podemos resumir os traços básicos da proposta c behaviorista radical para a psicologia, destacando quatro aspectos: a) o objeto de estudo da psicologia, isto é, os eventos com os quais trabalha, são da mesma natureza, têm as mesmas dimensões que os demais fenômenos do mundo físico ao nosso redor; b) isto vale também para os fenômenos psicológicos chamados de privados, os eventos que não se apresentam para estudo como a maioria dos fenômenos do mundo ao nosso redor; c) ao tratar com tais fenômenos, a psicologia não precisa supor um tipo de conhecimento diferente do conhecimento científico, afinal, as ciências que estudam o mundo ao nosso redor também lidam com coisas que não podem ver ou medir diretamente, e, finalmente, d) estes fenômenos não exigem métodos especiais para que possam ser estudados.

Considerando os últimos artigos publicados de Skinner (por exemplo, Can Psychology Be a Science of Mind, 1990/1999), talvez se possa (ou se deva) acrescentar à caracterização do behaviorismo radical um quinto aspecto: modelo causal de seleção por conseqüências. É quase impossível, hoje, falarmos de behaviorismo radical sem mencionar este modelo causal; nele encontramos a mais contundente resposta às propostas de buscar no interior do organismo as causas do comportamento.  Em linhas gerais, segundo o modelo de seleção por conseqüências, o comportamento humano seria o resultado de três processos de variação e seleção: a seleção natural, o condicionamento operante e transformação das culturas.  Desta forma, as causas do comportamento humano deveriam ser buscadas em três histórias de variação e seleção: a história da espécie, a história do indivíduo e a história da cultura.

Até aqui, provavelmente, nada que chame nossa atenção; nada de tão novo assim está sendo dito ou apresentado. Será, então, que a posição do behaviorismo radical, aparentemente tão simples, causou algum impacto?  Em nossa opinião, sim.  E para falar do impacto do behaviorismo radical sobre a explicação do comportamento humano, vamos destacar algumas mudanças na forma de ver, de compreender e de explicar o comportamento humano que a proposta behaviorista radical acarreta.

Impacto como mudança
Com o objetivo de organizar a exposição das mudanças acarretadas pelo behaviorismo radical, elas serão dividas em três tipos.

a) quatro mudanças fundamentais (nos fundamentos básicos para estudar o comportamento)

Uma primeira mudança está afirmada no último trecho citado de Skinner: o que ocorre dentro da pele de um organismo é considerado pelo behaviorista radical não como mediadores fisiológicos do comportamento, mas como parte do próprio comportamento.

Esta afirmação nos remete à velha proposta do comportamento como objeto de estudo e a um dos primeiros textos de Skinner (1931), no qual ele defende vigorosamente a peculiaridade do objeto de estudo da ciência do comportamento em relação à fisiologia.  Esta afirmação serve também para nos relembrar que o behaviorismo radical não tem nada a ver com as concepções do tipo input/output ou do tipo caixa preta.  O behaviorismo radical é anti-reducionista: não ganhamos nada ao reduzir nosso objeto de estudo - o comportamento - a um outro - alterações fisiológicas, e podemos perder muito, podemos perder nosso objeto de estudo; já que é sempre um organismo que se comporta, todo comportamento poderia ser reduzido a alterações fisiológicas.

Esta afirmação exige que lidemos com o comportamento como relação.  Assim, as alterações dentro da pele do organismo são parte do comportamento porque são parte de uma tríplice contingência; tais alterações podem ser: estímulos discriminativos, respostas ou estímulos reforçadores.

Uma segunda mudança não está tão clara como a primeira.  Ela se refere à própria concepção de evento privado. Como Skinner se refere aos eventos privados quase sempre como eventos que ocorrem dentro da pele do organismo, ele mesmo precisa alertar para a inadequação ou limitação desta caracterização e faz isso mais de uma vez (1953, 1963/1969, por exemplo).  Nestas ocasiões, fica claro que a localização do evento - estar do lado de dentro ou do lado de fora da pele do organismo - não é a fronteira adequada para estabelecermos a classe de eventos que são considerados eventos privados, mas sim que tais “fronteiras são os limites além dos quais a comunidade não pode manter contingências efetivas” (Skinner, 1963/1969, v.230). Em outras palavras, as fronteiras são estabelecidas pela possibilidade da comunidade liberar conseqüências, isto é que define o acesso ao evento pela comunidade reforçadora. Tal concepção exige, mais uma vez, que lidemos com relações - as classes de eventos são definidas não por características formais ou geográficas, imanentes aos eventos, mas por relações. No caso, o acesso de diferentes observadores aos eventos.  Assim definidas tais classe são históricas, mutáveis.

Uma terceira mudança é um pouco mais complicada que a anterior.  Afirmar que os eventos privados são iguais aos eventos do mundo físico ao nosso redor, com relação a sua natureza, não significa negar ou não reconhecer a existência de diferenças entre eles.  Com relação a isto, Skinner (1963/1969) é bastante claro, pelo menos quando aborda os estímulos privados internos:

Há, é claro, diferenças entre estímulos externos e internos que não são meras diferenças na localização.  Estímulos proprioceptivos e interoceptivos têm uma certa intimidade. Provavelmente, eles devem ser especialmente familiares.  Eles estão muito conosco; não podemos fugir de uma dor de dente tão facilmente como de um barulho ensurdecedor.  Eles podem muito bem ser de um tipo especial; os estímulos que sentimos no orgulho ou na mágoa podem não ser muito parecidos com os que sentimos na lixa ou no cetim Mas isto não significa que eles difiram com relação a seu status físico. Em particular, não significa que eles possam ser mais facilmente ou mais diretamente conhecidos. (p.230)

Aqui, novamente, uma posição anti-reducionista: uma igualdade ontológica - fenômenos da mesma natureza - e uma igualdade epistemológica - fenômenos que não são conhecidos de forma especial - não significa igualdade comportamental - podem existir peculiaridades na relação desses eventos com o próprio organismo que se comporta. Nosso compromisso em afirmar uma igualdade não pode nos cegar diante de outras possíveis diferenças.

Finalmente, a quarta mudança básica.  Ao assumir o modelo selecionista de causalidade, o behaviorismo radical se opõe a todas as abordagens mentalistas, desde as mais tradicionais, bem conhecidas e já submetidas a alguma crítica até as mais recentes, com ares de modernidade e que trazem o fascínio da novidade.  As diferentes aparências, as diferentes roupagens do mentalismo (por exemplo, o dinamismo psíquico freudiano, a auto-imagem da psicologia humanista, as analogias computacionais da psicologia cognitiva ou processos neuronais da neuropsicologia) não podem camuflar a sua estratégia básica: “a transformação conceitual de dados comportamentais em processos cognitivos ou mentais” (Ulman, 1991, p.60). Skinner (1990/1999) foi bastante claro ao indicar a oposição da concepção selecionista com o cognitivismo quando afirmou que:

Depois de quase um século e meio, a evolução não é ainda muito entendida.  Os defensores de um criador se opõem a ela vigorosamente.  Como resultado, ainda é impossível ensinar adequadamente biologia em muitas escolas americanas. Tem sido proposto que uma ciência da criação seja ensinada em seu lugar.  O papel da variação e seleção no comportamento do indivíduo sofre a mesma oposição.  A ciência cognitiva é a ciência da criação da psicologia, na medida em que ela luta para manter a posição da mente ou self. (p.672)

b) quatro mudanças especiais (que devem afetar diretamente o trabalho aplicado do behaviorista radical)

Ao detalhar sua posição sobre os eventos privados, Skinner (1953, 1963/1969, por exemplo) costuma enfatizar um aspecto que é, possivelmente, bem conhecido por nós: estudar os eventos privados não significa atribuir a eles papel causal em um episódio comportamental; em outras palavras, os eventos privados não são causa dos eventos públicos. Assumir esta proposta implica pelo menos duas mudanças diretamente relacionadas com a atuação prática do behaviorista radical.  Vamos, mais uma vez, recorrer diretamente a Skinner (1963/1969) para explicitar tais mudanças.

O caso das idéias

Inferimos as idéias de Newton a partir de coisas que ele disse e escreveu.  O próprio Newton sabia coisas que ele quase disse ou escreveu, assim como coisas que ele disse ou escreveu e reformulou, mas as idéias que ele não expressou inteiramente não foram causas das idéias que ele expressou.  Respostas encobertas não são as causas de respostas abertas, ambas são produtos de variáveis comuns. É importante lembrar isso quando tentamos induzir jovens a ter idéias. Por mais de dois mil anos, professores têm tentado estimular mentes, exercitar poderes racionais e implantar ou desmembrar idéias, e eles têm muito pouco a mostrar sobre isso. Um programa muito mais promissor é construir um ambiente educacional, verbal ou não verbal, no qual certo tipo de coisas, algumas delas originais, possam ser ditas e escritas. (p.258)

O caso da psiquiatria

Freqüentemente perguntamos a uma pessoa como ela se sente e, ao fazer assim, obtemos informação útil (...) Ao nos contar sobre seus sentimentos, ela relata informação que é útil para nós, mas que até aqui estava disponível apenas para ela.  Entretanto, não são os seus sentimentos que são importantes, mas as condições que ela sente. (...) não pedimos ao dentista que faça seu próprio dente doer ou escolhemos um cardiologista apenas entre aqueles que têm doenças cardíacas.  Reconhecemos que o que é tratado é a condição sentida e não o sentimento. A visão tradicional de que sentimentos são causas torna difícil ter a mesma visão diante da psiquiatria.  Freqüentemente, considera-se que o psiquiatra está engajado em mudar sentimentos.  Seu objetivo é fazer com que um paciente adulto sinta-se menos ansioso ou uma criança mais segura.  Ainda assim, ele muda o que é sentido. (p, 259).

O que está sendo ressaltado, nos dois casos, é que a posição behaviorista radical diante dos eventos privados é uma resposta às concepções mentalistas e não uma brecha para que tais concepções ressurjam disfarçadas e fortalecidas.  A critica ao mentalismo para ser conseqüente depende de considerarmos o organismo como um todo em sua interação com o ambiente.

Desta forma, quando colocamos nas respostas encobertas um papel especial pelo único fato delas serem encobertas estamos caindo no fascínio do não visto e mesmo sem querer estamos a um passo do mentalismo, já que transformamos uma questão de acesso em uma questão de primazia e de qualidade; qualidades diferentes já significam um organismo dividido.  Além disso, nos afastamos das condições realmente responsáveis por tais respostas.  Quando consideramos sentimentos como objeto de nossa atenção, deixamos de lidar com o que é sentido, isto é, com as condições corporais que são alteradas quando o organismo interage com o ambiente.  Novamente, fragmentamos o organismo, agora ao desconsiderar parte dele que está mudando.  No melhor dos casos, confundimos o que é sentido com o sentimento observação e relato do que é sentido; isto é, confundimos contingências diferentes.  Mais uma vez nos afastamos das condições realmente responsáveis, neste caso, pelo que é sentido.

Um outro aspecto, também comumente enfatizado por Skinner (1953, 1963/1969, por exemplo) quando ele aborda os eventos privados, refere-se aos comportamentos encobertos ditos sensoriais (ver, ouvir, tatear etc).  Skinner enfatiza que tais comportamentos são comportamentos discriminativos, comportamentos que envolvem, portanto, controle de estímulos sobre determinadas respostas e não a reprodução desses estímulos; formas de ação em relação ao mundo a nosso redor e não formas de reprodução desse mundo.  Nós vemos um determinado objeto e não uma cópia (imagem) deste objeto que foi reproduzida por nós mesmos.

Em algum ponto o organismo deve fazer mais do que criar duplicatas.  Ele deve ver, ouvir, cheirar e assim por diante, como formas de ação e não de reprodução.  Ele deve fazer algumas das coisas pelas quais ele é diferencialmente reforçado por fazer, quando ele aprende a responder discriminativamente. (p.232)

Como qualquer outra resposta operante, estas respostas são multideterminadas; além do estímulo discriminativo que a evoca, outras variáveis podem ser responsáveis por sua emissão.  Assim, estas respostas podem ocorrer na ausência do estímulo discriminativo que em geral as evoca, se estas outras variáveis estiverem presentes, exercendo controle sobre a resposta.  Isto quer dizer que é possível ocorrer o comportamento de ver na ausência da coisa vista.  Com estas considerações, podemos abordar a terceira mudança especial.

O caso do sonho

Se o ver não requer a presença das coisas vistas, não precisamos nos preocupar com certos processos mentais que são considerados como estando envolvidos na construção de tais coisas - imagens, memórias e sonhos, por exemplo. Podemos considerar um sonho, não como uma exibição de coisas vistas pelo sonhador, mas simplesmente como o comportamento de ver.  Em nenhum momento durante o sonhar acordado, por exemplo, deveríamos esperar encontrar dentro do organismo qualquer coisa que corresponda aos estímulos externos presentes quando pela primeira vez o sonhador adquiriu o comportamento no qual ele está agora engajado. (...) O homem levou muito tempo para entender que quando ele sonhava com um lobo, nenhum lobo estava realmente lá.  Ele levará muito mais tempo para entender que nem mesmo há uma representação do lobo. (p.234)

Talvez nunca seja demais repetir: ao sonhar, o homem está simplesmente emitindo o comportamento de ver sem que aquilo que ele está vendo esteja presente; ele não está contando algo que já viveu, não está contando algo que gostaria de viver ou que gostaria de dizer ou mesmo que gostaria de esconder, ele está simplesmente vendo na ausência da coisa vista, ou seja, na ausência dos estímulos discriminativos que, em geral, evocam aquele comportamento de ver.  Portanto, o que cabe perguntar sobre este comportamento é: que variáveis são responsáveis pela emissão do comportamento?  Com esta concepção, o sonhar para ser descrito, compreendido e explicado deve ser tratado como qualquer outro comportamento operante; como o andar, por exemplo.  Como para qualquer outro comportamento precisamos perguntar pelas variáveis que o constituem, responsáveis por sua ocorrência.  Sonhar exige ou merece interpretação como qualquer outro comportamento, e se interpretar é buscar o significado, devemos lembrar, mais uma vez, que, como para qualquer comportamento, o significado não é propriedade da resposta - neste caso, do sonho - ele deve ser encontrado nas contingências relacionadas com a emissão da resposta (Skinner, 1953, 1974, por exemplo).

O caso do autoconhecimento

As relações entre organismo e ambiente envolvidas no conhecimento são de um tipo tal que a privacidade do mundo dentro da pele impõe limitações mais sérias ao conhecimento pessoal do que à acessibilidade daquele mundo para o cientista. (...) A comunidade geralmente está interessada no que um homem está fazendo, no que ele fez ou no que está planejando fazer e no porquê, e ela arranja contingências que geram respostas verbais que nomeiam e descrevem estímulos externos e internos associado com aqueles eventos. A “consciência” resultante a partir de tudo isso é um produto social. (pp.228,229)

O autoconhecimento é apenas o conhecimento no qual o sujeito que produz conhecimento é também o objeto conhecido.  A especificação “auto” refere-se ao objeto do conhecimento e não a forma ou maneira que o conhecimento é produzido.  Para o behaviorismo radical o autoconhecimento não é imediato; ao contrário, ele é sempre mediado por outros.  Isto que dizer que o autoconhecimento não ocorre necessariamente e espontaneamente, mas, quer dizer mais: uma pessoa que viva isolada, distanciada de um grupo não irá sequer ter curiosidades a seu respeito, ela não se apresenta a si mesmo como objeto de conhecimento.  A quantidade e a qualidade de conhecimento que uma pessoa terá sobre si mesma dependerão do interesses que o grupo social tem nela.  Assim, se quisermos apurar nosso autoconhecimento devemos, em primeiro lugar, voltar nossa atenção para apurar o comportamento de nosso grupo em relação a nós e não voltar nossa atenção para apurar o nosso próprio comportamento. Ele será apurado apenas como conseqüência do refinamento social.

 

e) uma mudança geral (que deve afetar profundamente o cotidiano de todo behaviorista radical)

Se ser diferente de outras propostas implica mudança, podemos dizer que Skinner (1972/1978) foi bastante claro ao indicar todo o impacto que sua proposta acarreta, toda mudança que exige.  Ele mesmo se pergunta sobre o que está querendo dizer quando apresenta algumas das características básicas do behaviorismo radical:

“Eu quero dizer que Platão nunca descobriu a mente? Ou que (...) Descartes, Locke e Kant estavam preocupados com subprodutos incidentais, freqüentemente irrelevantes, do comportamento humano? Ou que as leis mentais de psicofisiólogos como Wundt, ou o fluxo da consciência de William James, ou o aparato mental de Sigmund Freud, não tiveram papel útil no entendimento do comportamento humano? Sim, eu quero. E eu coloco o assunto nitidamente porque, se devemos resolver os problemas com os quais nos defrontamos no mundo hoje, esta preocupação com a vida mental não deve mais desviar nossa atenção das condições ambientais das quais o comportamento humano é função” (p. 51).

Talvez seja difícil encontrar um trecho mais claro do que este.  Com ele aprendemos que o behaviorismo radical difere de parte significativa das orientações presentes na psicologia por não aceitar as proposições dessas outras orientações. E aprendemos, também, que há uma diferença mais importante, o behaviorismo radical difere de outras propostas por tratar a sua proposta filosófica como instrumento de transformação social.  Aqui talvez esteja sua maior diferença e, portanto, a mudança mais radical que ele acarreta.

 

Criando condições para a mudança

Digamos que as mudanças aqui indicadas sejam representativas do tipo e da extensão das mudanças que uma filosofia behaviorista radical exige se quisermos assumi-la como orientação para nosso trabalho.  Como podemos efetivar tais mudanças?

Um primeiro passo poderia ser analisar as contingências que produziram filósofos behavioristas radicais.  Nada melhor do que escolhermos Skinner como tal filósofo.

É possível que a própria distinção que Skinner estabelece entre o que ele classifica como filosofia (e chama de behaviorismo radical) e o que ele classifica como ciência (e chama de análise experimental do comportamento), o cuidado que tem em recorrentemente apresentar esta distinção e o cuidado em detalhar as características básicas de sua proposta filosófica sejam decorrentes das preocupações que aproximaram Skinner da psicologia.  Alguns trechos de uma entrevista de Skinner (1979)            para a revista Behaviorists For Social Action Journal mostram de forma resumida e clara este percurso:

(...) eu vim para o behaviorismo procurando uma teoria do conhecimento.  Eu não conhecia nada sobre psicologia.  Eu nunca tinha tido um curso sobre o assunto.  Eu pensava que behaviorismo fosse psicologia. (...) Eu não era um positivista lógico. (...) Eu também não era um positivista comteano.  Comte foi um tipo de estruturalista e, de acordo com essa visão, apenas o que pode ser observado importa, o que quer dizer o mundo físico.  Isto excluía sensação, percepção, instinto, personalidade, drive - todas as coisas dentro que estavam (supostamente) levando o organismo a se comportar.  Mas eu deixei claro em meu artigo de 1945 - e este foi, eu penso, um de meus artigos mais importantes - nós observamos eventos privados e o fato de que duas pessoas não possam observá-los não os faz absolutamente menos reais. (p.47)

Além de saber o que procurava, alguns dos textos escritos por Skinner mostram a incursão, a exploração, o estudo dos mais diversos assuntos, como por exemplo, pintura, literatura, história, história da filosofia, história da ciência, história da tecnologia, etimologia.  Um bom exemplo desta versatilidade pode ser encontrado no artigo The machine that is the man (l969).  Neste artigo, Skinner discute alguns aspectos relacionados ao behaviorismo radica. Para fazer isto parte de um trecho de texto literário, analisa uma pintura de Michelangelo, passa pela história da filosofia e pela história do desenvolvimento tecnológico.  Podemos dizer que, a partir de todos estes “elementos”, Skinner analisa as variáveis que têm controlado o comportamento humano de explicar o comportamento humano.

 

Além de muito estudo, os textos produzidos por Skinner quase sempre revelam uma extrema sensibilidade para os problemas e ações humanas.  A impressão que se tem é que ele refletia sobre todos os aspectos envolvidos na vida do homem. Parece que não haviam aspectos proibidos ou menos interessantes.  Não raro somos surpreendidos, ao ler seus textos, com os comentários que faz sobre tais aspectos.  Quem espera encontrar, em uma nota sobre o componente de ver, a seguinte afirmação:

O verdadeiro amante se distingue pelo fato de que ele não precisa de estímulos para ver seu amado. É possível que as religiões tenham proscrito a idolatria por esta razão.  O uso de um ídolo para ver um deus é um sinal de fraqueza. (Skinner, 1963/1969, p.253).

Além de observar e analisar os homens se comportando, Skinner parecia sempre estar preparado, disposto para a mudança.  Sua posição sobre o futuro do behaviorismo radical (Skinner, 1963/1969) exemplifica isto:

O behaviorismo, como nós o conhecemos, finalmente morrerá - não porque é um fracasso, mas porque é um sucesso, Como uma filosofia crítica da ciência, ele necessariamente mudará à medida que uma ciência do comportamento for mudando e as questões atuais que definem o behaviorismo forem sendo totalmente resolvidas. (...) Um behaviorismo radical ataca as explicações dualistas do comportamento, em primeiro lugar, para clarificar suas próprias práticas científicas, e deve fazer assim, finalmente, para construir sua contribuição para os assuntos humanos. À medida que aumenta seu poder, como ciência básica e como fonte de uma tecnologia, uma análise do comportamento reduz o escopo de explicações dualistas e deveria, finalmente, dispensá-las completamente.  O behaviorismo, como um ismo, será, então, absorvido por uma ciência do comportamento.  Sempre pode haver lugar para uma lógica da ciência peculiar a uma tal ciência, mas ela não lidará com as questões que definem o behaviorismo hoje. (p.267)

Estes exemplos podem nos dar pistas sobre as contingências em vigor, pelo menos eles indicam alguns componentes que, de alguma forma, acompanharam o filosofar de Skinner.  O que de mais claro eles nos indicam é que a primeira condição que precisamos criar, se quisermos produzir em nós as mudanças exigidas pelo behaviorismo radical, é aceitar o duplo convite feito por este behaviorismo: convite para o estudo, sistemático e contínuo, e convite para a ação.


* Este artigo faz parte, agora, do livro Cumulative Record; o artigo foi acrescentado à republicação do livro feita pela B.F.Skinner Foundation (1999).

 

 

Psicólogo em Brasília - Clínica Brasília de Psicologia Brasília, DF BR SGA / L2 Sul, Quadra 616, Bloco A, Loja 14 - Centro Clínico Linea Vitta. CEP: 70.200-760
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