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Um enfoque contextual para mudança terapêutica
Steven Hayes, University of Nevada


Um enfoque contextual para mudança terapêutica - Steven Hayes, University of Nevada

   O movimento da terapia comportamental não era, inicialmente, um movimento para introduzir o behaviorismo na psicologia aplicada. Se alguma vez houve alguma dúvida em relação a isto, a tendência nos últimos 10 anos, dentro da terapia comportamental, deveriam ter resolvido essa dúvida. Temos vistos a escalada das análises cognitivistas, análises "self-based" e do mero empirismo como substitutos para uma verdadeira análise comportamental dos problemas clínicos.

   Talvez não haja nada de errado com isto. As análises cognitivistas, por exemplo, têm uma longa tradição tanto dentro da psicologia como da cultura geral. Presumivelmente, elas não teriam sobrevivido se não tivessem algum valor. O que parece inadequado porém, é que os terapeutas do comportamento têm, frequentemente, pouca facilidade com o behaviorismo e com a teoria behaviorista. Devido a isto, a possível contribuição de uma perspectiva bastante diferente sobre o comportamento humano foi consideravelmente atenuada.

  Meu propósito neste capítulo é mostrar uma maneira pela qual o que eu considero a essência do behaviorismo radical poderia ser aplicada aos problemas clínicos de adultos. Não estou afirmando que ela é a única forma de aplicar esta perspectiva à problemas de adultos - é apenas uma das formas que eu espero ser de algum valor. Antes de descrever o próprio enfoque terapêutico, será necessário discutir brevemente os pressupostos filosóficos básicos que eu suponho constituem o coração do bahaviorismo radical. Muitos psicólogos frustram-se facilmente com a filosofia e esperam escapar da responsabilidade de terem que assumir posições filosóficas refugiando-se no empirismo (Adams, 1984). Não há maneira, porém, de entender o presente enfoque terapêutico sem entender, também, os pressupostos que o fundamentam sem distinguir estes pressupostos daqueles que são encontrados na cultura dominante. O leitor perceberá rapidamente que eu não tenho interesse em promover a caricatura do behaviorismo radical apresentada tão frequentemente em nossas revistas e textos behavioristas. Precisarei explorar os aspectos periféricos (fringes) da teoria comportamental para visualizar (gleen) princípios e análises que possam ser aplicadas a humanos com habilidades verbais. Muitos princípios comportamentais são desenvolvidos a partir de organismos não verbais. Há boas razões para acreditar que os organismos verbais são muito diferentes dos não verbais. Esta é uma razão pela qual muitos terapeutas comportamentais se "tornaram cognitivistas". Na minha opinião este é o problema certo, mas a solução errada.

   BEHAVIORISMO RADICAL

   A essência do behaviorismo radical pode ser resumida em quatro palavras: contextualismo, monismo, funcionalismo e antimentalismo. Esta não é, obviamente, a ocasião adequada para envolver-se em uma discussão prolongada acerca do behaviorismo radical, mas, felizmente, para os nossos propósitos presentes, podemos focalizar somente uns poucos aspectos da natureza do comportamento e da causalidade dentro da análise do comportamento e, então, aplicar isto ao possível papel que os pensamentos teriam na ação humana.

   O QUE PODE A CIÊNCIA ESTUDAR?

   É comum, em nossa linguagem do dia-a-dia, distinguir comportamentos de pensamentos, sentimentos, intenções, etc. Todo o movimento cognitivo-comportamental baseava-se, originariamente, nesta distinção. Se a terapia do comportamento trata o comportamento, então surge a questão que necessitamos alguma maneira de tratar também os pensamentos. Mesmo o título deste livro baseia-se na distinção entre comportamento e cognição.

   Para entender o contexto histórico desta distinção em Psicologia, é útil distinguir quatro perspectivas: o behaviorismo metafísico Watsoniano, o behaviorismo metodológico Watsoniano, o behaviorismo metodológico contemporâneo e o bahaviorismo radical. Como Skinner destacou (Skinner, 1969) Watson criou diversos problemas extensos para o behaviorismo devido a perspectivas filosóficas que adotou. Eles foram úteis na época, mas faz-se necessário avançar. A maioria dos psicológicos avançaram mas, infelizmente, eles assumiram, com frequência, perspectivas filosóficas ainda mais deficientes. Nesse ínterim, a palavra "behaviorismo" reteve muito do "tempero" dessas posições iniciais.

   Watson, reagindo aos fundamentos do introspeccionismo, disse duas coisas: (1) os eventos observáveis não públicos não existem, (2) tudo que a Ciência pode estudar, de qualquer maneira, são os eventos públicos, observáveis. A primeira posição pode ser chamada o behaviorismo metafísico Watsoniano. Realmente, uma leitura simpática e cuidadosa de Watson não leva a interpretá-lo como tendo assumido tal posição, mas foi amplamente entendido que ele de fato a assumiu (to have advanced it). É obviamente uma posição que a maioria das pessoas rejeitará, desde que a realidade de nossos próprios sentimentos dificilmente pode ser negada. A segunda posição proporcionou os fundamentos do bahaviorismo metodológico, uma posição que influenciou profundamente a psicologia americana durante este século. Basicamente, esta posição indica que há uma distinção a ser feita entre os pensamentos, sentimentos e outros eventos privados, por um lado, e comportamento e outros eventos observáveis publicamente, por outro. De acordo com esta posição, só os eventos publicamente observáveis podem ser considerados em ciência, devido aos requisitos da metodologia científica. Outros tipos de eventos podem existir, mas são cientificamente ilegítimos ou, pelo menos, não analisáveis. Originariamente, esta posição foi usada para excluir da consideração científica os eventos "mentais" visados pelos introspeccionistas. Ao longo do tempo, porém, teve um segundo efeito mais danoso. Uma vez que o behaviorismo metodológico não afirma que os eventos não analisáveis do ponto de vista científico não existem - só que não são analisáveis - foi possível para os psicólogos agir como se houvesse duas categorias ontológicas no mundo. Em outras palavras, o behaviorismo metodológico é implicitamente dualista (Moore, 1951; Skinner,1969). O behaviorismo metodológico contemporâneo (Mahoney, 1974) tem procurado obter vantagem dessa brecha óbvia. No behaviorismo metodológico contemporâneo a definição do que é cientificamente analisável é, mais uma vez, os eventos publicamente observáveis, mas que diz que somos capazes de usar o mundo cientificamente analisável para fazer inferências acerca do mundo cientificamente não analisável. Assim, por exemplo, podemos não ser capazes de ver os pensamentos diretamente, mas podemos ver a influência dos pensamentos em outros tipos de comportamento humano, tais como os relatos em um inventário. O mesmo argumento pode ser aplicado a eventos que são completamente inferidos e, em princípio, nunca podem ser observados diretamente por ninguém, nem mesmo pela pessoa que "o que está fazendo", tais como os níveis de processamento ou de estruturas mentais profundas. Ao longo do tempo, a influência do behaviorismo metodológico contemporâneo tem levado a mais e mais modelos inferenciais, desde que devemos permitir, convenientemente, uma grande quantidade de inferência simplesmente para endereçar questões de significado humano fundamental.

   O dualismo literal não é frequentemente adotado por cientistas, devido a suas deficiências científicas óbvias. Se o espírito é "imaterial" não pode ter as qualidades da matéria, tais como: começo e fim, massa, aceleração, tamanho ou nenhuma propriedade discernível. Mesmo como "o espírito" poderia ser conhecido é problemático nestas condições (Hayes, 1984; Hayes & Brownstein, 1980). Os seguidores do behaviorismo metodológico, que infelizmente incluem a maioria dos terapeutas comportamentais, frequentemente negam o dualismo literal, enquanto mantêm que a metodologia científica força um tipo determinado de dualismo em todos nós. O problema com este tipo determinado de dualismo em Ciência é que coloca algemas na análise científica deixando alguns dos fenômenos mais interessantes fora de seu alcance direto.

   O behaviorismo radical é mais frequentemente confundido com as posições de Watson. Os textos da terapia comportamental contemporânea ainda agem como se, de alguma maneira, Skinner considerasse que os pensamentos, sentimentos, etc,. fossem objetos ilegítimos de estudo científico. O problema existe porque a posição de Skinner é muito sofisticada e muda, de maneira fundamental, a forma como encaramos esta questão. A posição de Skinner é basicamente esta: o comportamento é a atividade observável dos organismos. Note que a palavra "publicamente" não aparece nesta definição. No behaviorismo radical um evento que mesmo uma única pessoa pode observar está aberto a uma análise científica (Skinner, 1945). Como isto é possível, será discutido brevemente, mas a implicação é que os pensamentos não são substancialmente diferentes em virtude de sua natureza privada. Eles podem ter propriedades especiais porque são verbais, mas eles ainda são comportamentos.

Em resumo, o behaviorismo metafísico Watsoniano é monista, mas exclui o mundo privado da consideração por direito próprio (intrínseco). O behaviorismo metodológico (em ambas variedades) é implicitamente dualista. O behaviorismo radical é monista, mas inclui o mundo da experiência privada. Note-se que desde a perspectiva do behaviorismo radical, a distinção entre o físico e o mental é falsa. A distinção entre o público e o privado é uma distinção real, mas não tem nenhuma relação com a dicotomia mental-física e não é, em absoluto, o mesmo que a distinção entre o subjetivo e o objetivo. É bem possível, por exemplo, fazer análises objetivas da experiência privada ou análises subjetivas (e, em consequência, não válidas do ponto de vista científico) de eventos publicamente observáveis.


   CAUSALIDADE E A ANÁLISE DO COMPORTAMENTO

   Se os behavioristas radicais consideram os pensamentos como comportamentos, por que eles frequentemente fazem objeções aos tipos de análises tão populares na literatura cognitiva-comportamental? O problema não é com o fenômeno que está sendo estudado, mas com (1) o dualismo implícito inerente à maioria das abordagens científicas, e (2) com o tipo de análises realizadas (Hayes & Brownstein, 1986a, 1986b).

   O behaviorismo radical adota o contextualismo, o pragmatismo e o funcionalismo. Entre outras coisas, isto significa que o comportamento somente pode ser entendido no contexto. Literalmente, o comportamento pode não fazer sentido - mesmo suas unidades de análise podem não ser conhecidas - a menos que seja entendido o contexto no qual o comportamento acontece. Contexto é somente uma outra palavra para designar as contingências de reforçamento, sobrevivência e evolução cultural. As contingências simplesmente descrevem a relação funcional do comportamento com eventos no espaço e tempo que precedem e seguem o comportamento durante a vida do indivíduo (reforçamento), durante a vida das espécies (sobrevivência) ou durante a vida de um grupo cultural (evolução cultural). Assim, uma análise comportamental estará sempre ligada à tarefa da análise de contingências. Esta é a razão pela qual a concordância pública não é um requerimento de observações cientificamente válidas, dentro de uma análise comportamental radical. Mesmo o comportamento dos cientistas está sujeito à análise de contingências. Uma observação cientificamente válida acontece quando as contingências que controlam a observação estabelecem o controle pelos estímulos ambientais descritos na observação (Skinner, 1945). Pode-se chegar a uma concordância pública acerca de determinados eventos, mas, mesmo assim, essa observação pode não ser válida como quando um grupo de adolescentes concordam erroneamente que um estranho que entreviram é, realmente, um astro de rock muito conhecido. Inversamente, os eventos podem ser privados, mas válidos, como quando um marinheiro experiente faz anotações diárias e cuidadosas acerca da diminuição do suprimento de água disponível. Em poucas palavras, as observações são cientificamente válidas até o ponto em que estão baseadas em "Tatos" (Skinner, 1957): comportamento verbal sob o controle da presença ou ausência de estímulos específicos em vez de o controle pela audiência, estados de privação ou outros fatores semelhantes (Hayes & Brownstein, 1980). Os adolescentes de que falamos acima "vêm" o astro de rock porque estão motivados para fazê-lo e porque seus colegas "vêm" a mesma coisa. A observação do marinheiro é controlada pela própria água, mesmo que poderia ser mais reforçador "ver" o suprimento de água permanecer estável.

   De acordo com o que tem sido dito até aqui, uma pergunta como "Que papel tem os pensamentos no controle do comportamento humano?" deveria ser mudada para: "Que tipos de contingências levariam um comportamento a acontecer e a influenciar um outro comportamento?". Alguns autores (Killeen, 1983) criticaram a utilidade de chamar as ações privadas de "comportamentos", mas há fortes razões para fazê-lo assim. Primeiro, enfatiza que é o trabalho da Psicologia explicar estes eventos. Se tentarmos entender o comportamento de um indivíduo, considerando os pensamentos como comportamentos, requer que entendamos, também, os pensamentos. Segundo, impede as explicações incompletas que são inúteis para a predição e o controle (ver Hayes & Brownstein, 1986a para uma discussão detalhada deste tópico). Reconhecemos intuitivamente que a explicação de um comportamento através de outro, é incompleta. Por exemplo, se afirmarmos que uma pessoa joga "racquetball" bem porque joga "squash" bem, nos perguntaríamos imediatamente porque ela joga "squash" bem e porque os dois estão relacionados. Podemos usar a relação para predizer que será bom no "racquetball", mas esta relação não pode nos dizer, em si mesma, como produzir um excelente desempenho no "racquetball". Suponha, porém, que mudemos o alcance (realm) destes dois eventos relacionados. Suponha que afirmemos que essa pessoa jogava um bom "racquetball" porque era confiante, entusiasta e tinha alta auto-estima. Note que esta explicação não parece tão obviamente incompleta como a primeira. Parece como se os eventos explanatórios fossem de uma classe diferente que o evento explicado e, assim, são possivelmente completos. Usando o termo "comportamento" para toda atividade organísmica, é menos provável que este auto-engano aconteça. As características operantes dos relacionamentos como explicações científicas são as mesmas se considerarmos uma relação entre duas ações abertas, ou entre um pensamento e uma ação aberta. Note que neste último exemplo poderíamos predizer diretamente baseados nas relações entre os pensamentos e os comportamentos abertos, mas não poderíamos usá-los diretamente para controlar o evento em questão.

   Há uma razão final para considerar as ações primitivas como comportamentos. Uma vez que nos acostumamos a pensar sobre o controle cognitivo como em uma relação comportamento-comportamento, podemos começar a pensar nas relações de comportamento-comportamento em termos de análise de contingências. Fazer isto requer que entendamos as contingências que dão lugar (giving rise) a cada comportamento e - isto é o âmago da questão - a relação entre eles. Assim, devemos perguntar "Quais são as contingências que dão suporte à relação entre pensamentos e outras formas de ação humana". Neste ponto de vista, os pensamentos não produzem necessariamente nenhum efeito em outros comportamentos. É só devido ao contexto (as contingências) que uma forma de comportamento se relaciona à outra. Tudo que tenho dito até aqui tem sido dito simplesmente para justificar a sensibilidade comportamental deste ponto. Como tentarei mostrar, pode fazer uma diferença enorme na maneira como enfocamos a terapia.


   PRINCÍPIOS COMPORTAMENTAIS RELEVANTES PARA O CONTROLE COGNITIVO

   Não é uma análise comportamental adequada dos pensamentos simplesmente falar, de uma maneira geral, que os pensamentos são comportamentos. Por que, além da questão da privacidade, é dada tanta atenção aos pensamentos, sentimentos, atitudes, intenções, propósitos, planos, etc?. Uma das principais possibilidades é que estes comportamentos são todos, até certo ponto, verbais. Examinando cada uma das palavras acima citadas podemos ver que, com a possível exceção dos sentimentos (e termina não sendo uma exceção), cada um desses termos acrescenta pouco, a menos que pensemos sobre eles como acontecendo em um organismo verbal. Suponhamos, por exemplo, que uma pessoa diga "tenho um plano". Quando lhe seja pedido explicar o plano, diz: Não posso, porque não tenho idéia de qual é o plano". Isto pareceria muito estranho. Quando os humanos verbais tem planos, intenções ou pensamentos, etc., esperamos que eles tenham estes comportamentos de uma maneira verbalmente sensível. Consideremos, então, a possibilidade de que o controle cognitivo seja realmente uma questão de controle verbal.

   Por que seria o controle verbal diferente de qualquer outro tipo de controle?. De acordo com Skinner, todo comportamento é, em última instância, modelado pelas contingências, mas diz-se que o importante sub-conjunto de comportamentos é governado por regras (1966, 1969). Uma regra, para Skinner, é um estímulo especificador de contingências. Acredito que deveríamos definir uma regra como um estímulo verbal especificador de contingências. O que eu quero dizer por "verbal" será discutido brevemente. Skinner (1969, p.140) provê um exemplo interessante de comportamento governado por regras. Um jogador (outfielder) move-se para pegar uma bola. Seguindo sua trajetória, ele move-se por baixo dela e pega-a com sua luva. O jogador tem feito isto centenas ou milhares de vezes. Seu comportamento é presumivelmente modelado amplamente pelas contingências em sua maior parte - isto é, o movimento em direção à bola é controlado pela posição e trajetória da mesma e a história do jogador de pegar bolas sob situações similares. Um cachorro pode facilmente adquirir o mesmo comportamento quase da mesma maneira (por exemplo, ao pegar um biscoito). Consideremos agora o comportamento de um capitão que está movendo seu barco para pegar um satélite cadente. A trajetória do objeto que cai é analisada em detalhes. Modelos matemáticos que levam em conta uma série de fatores, tais como, a velocidade do vento e coeficientes de "drag" são consultados. O lugar de impacto é predito com base nestas regras verbais, e então especificado. Se as regras são adequadas e se são seguidas cuidadosa e corretamente, o satélite será apanhado (caught) - não devido aos sucessos passados do capitão do barco na reação à trajetória dos satélites, senão devido a seu sucesso passado em seguir as regras e a adequação da própria regra.

De início pode parecer que as regras, uma vez que são estímulos, devam operar através de processos de controle de estímulos identificados no laboratório com animais. Skinner foi consideravelmente insistente com relação a que o controle verbal sobre o ouvinte não é verbal em si mesmo, porque é simplesmente uma questão de controle discriminativo (1957). Não há nada na Terapia Comportamental, porém, que torne necessária tal solução. Trinta anos atrás, isso parecia bastante plausível, mas evidências mais recentes sugerem que o controle verbal tem propriedades que são difíceis de extrapolar a partir do controle discriminativo, como tem, sido visto no laboratório com infra-humano. Há um crescente corpo de evidências que indicam que diferentes processos ocorrem no controle de estímulos em humanos. O sentido que os não behavioristas têm dado há muito tempo de que os processos comportamentais que influenciam os humanos são diferentes daqueles que influenciam os infra-humanos, podem vir a ser considerados corretos somente quanto ao grau de influência envolvido. Paradoxalmente, a teoria do comportamento pode ser melhor posicionada para estudar as diferenças exatas entre o desempenho humano e infra-humano, precisamente porque ela tem seguido um enfoque indutivo do comportamento humano, enfatizando sua continuidade com o comportamento infra-humano.

 

O EFEITO DAS REGRAS

O comportamento humano operante com frequência, difere significativamente do comportamento de outras espécies. Em muitas situações os humanos tendem a ser relativamente insensíveis à mudanças de contingências, enquanto que os animais seriam, com certeza, totalmente sensíveis (Ader & Tatum, 1961; Harzem; Lowe & Bagshaw, 1978, Hayes, Brownstein, Zettle, Rosemfarb & Korn 1968a; Matthews, Shimmff, Catania & Sagvolden, 1977; Shimoff, Catania & Mattews, 1981). Os humanos mostram padrões de resposta que diferem marcadamente daqueles apresentados pelos infra-humanos, mesmo nos esquemas mais simples de reforçamento (Leander, Lippman & Meyer, 19968; Lowe, Harzen & Huhhes, 1978; Weiner, 1964, 1969). Existem diferenças muito similares, todas as quais enfatizam o fato de que as respostas dos humanos e infra-humanos podem, às vezes, ser controladas por diferentes variáveis (Hayes, no prelo). Nos últimos anos tem ficado mais e mais plausível que algumas destas diferenças podem ser explicadas como sendo devidas aos efeitos das regras sobre as ações humanas (Baron & Galizio, 1983; Lowe, 1983).

As evidências em favor deste ponto de vista vêm a partir de diversas descobertas. Primeiro, os humanos se comportam como os infra-humanos o fazem, em esquemas simples de reforçamento, antes de adquirirem habilidades de linguagem extensivas (Lowe, Beasty & Betall, 1983). Há considerável evidência de que os humanos verbais são extraordinariamente sensíveis ao controle instrucional (ver Baron & Galizio, 1983 para uma revisão recente). Em geral, o desempenho humano é mais semelhante àquele de outros animais quando a tarefa é indireta ou complexa, e quando seguem-se passos para tornar menos provável o uso direto de habilidades verbais na realização da tarefa (por exemplo, Lowe et al., 1978 Lowe, Harzen & Bagshaw, 1978). Comparados à resposta modelada, os desempenhos instruídos são muito sensíveis às mudanças de contingências, mesmo em adultos verbais (Matthews et al., 1977; Shimoff et al., 1981). Com instruções adequadas, os humanos verbais podem ser levados a responder de maneiras que parecem imitar o comportamento de infra-humanos (Baron & Galizio, 1983), mas outras pesquisas tem mostrado que diferente do responder de infra-humanos, estes desempenhos também serão muito rígidos quando as contingências mudarem subsequentemente (Hayes, Brownstein, Haas & Greemway, 1980b; Shimoff, Matthews & Catania, 1980).

O que acontece com as regras que podem levar a tais efeitos profundos e generalizados sobre as maneiras pelas quais o meio ambiemte tem um impacto sobre o comportamento humano?. Em certo sentido, esta é a questão central do movimento cognitivo dentro da psicologia comportamental. De maneira mais geral, é a questão que necessitamos responder para entender os fenômenos clínicos adultos.

Uma possível explicação é que as regras podem gerar padrões de respostas que impedem o contato efetivo com as contingências (Galizio, 1979). Isto não requer uma análise especial do comportamento governado por regras em si. É bem conhecido que são as contingências atuais com as quais entramos em contato e não as contingências programadas que influenciam o comportamento (por exemplo, Anger, 1956; Herrnstein, 1970). Assim, se somos levados por uma regra a nos comportarmos de maneira que nos impeça de contactar com o meio ambiente de forma efetiva, não seria surpreendente ver efeitos a longo prazo e generalizados das regras. Diversos estudos, porém, tem mostrado que as instruções tem efeitos generalizados e danosos sobre o comportamento, mesmo quando as contingências são conectadas (por exemplo, Hayes et al., 1986). Também é sabido que as regras podem facilmente estabelecer (engage) contingências sociais que podem, então, influenciar profundamente o comportamento - uma noção para a qual eu retornarei mais tarde no capítulo.

Uma alternativa interessante e uma possibilidade mais exótica tem aparecido na última década. Pesquisas recentes têm demonstrado que os humanos podem facilmente desenvolver um tipo especial de controle de estímulos. Consideremos uma situação na qual um humano é ensinado que alguns estímulos arbitrários acompanham vários outros. Por exemplo, suponhamos que mostremos a uma criança pequena uma figura de diversos animais imaginários. Pedimos à criança para escolher o "wheezu" e dizemos "correto" somente quando ela aponta um animal de oito pernas. Depois pedimos à criança para escolher o nome "wheezu" de uma lista de nomes e dizemos "correto" quando a palavra escrita "wheezu" é selecionada. Em outras palavras, ensinamos a criança que A vai com B, e A vai com C, onde A refere-se ao nome falado, B à figura e C ao nome escrito. Animais podem aprender discriminações deste tipo muito bem. Porém, se agora pedimos à criança para selecionar a figura que corresponde a palavra escrita WHEEZU (por exemplo, escolher B diante de C), ela fará isto bem rapidamente (Sidman & Tailby, 1983), mesmo que a escolha de B na presença de C nunca tenha sido explicitamente reforçada. De maneira similar, a criança rapidamente escolherá a figura de um Wheezu comparada com ela mesma (isto é, escolherá B dado B) e será capaz, provavelmente, de dizer "Wheezu" em resposta à figura ou à palavra (isto é, selecionará A dado, ou B ou C). Este fenômeno é chamado "equivalência de estímulos" e parece representar um tipo fundamentalmente diferente de controle de estímulos. Tanto quanto sabemos, os humanos são os únicos animais que mostram esta habilidade prontamente. Mesmo em primatas não tem sido encontradas estas associações não treinadas (Sidman, Rouzin, Lazar, Cunningham, tailby & Carrigan, 1983).

É possível interpretar a equivalência de estímulos como um caso especial de um fenômeno mais geral (Hayes, 1980; Hayes & Brownstein, 1983). Quando um sujeito humano aprende que A "é o mesmo que B", isto sempre significa que B é o mesmo que A. Encontramos muitos exemplos em que os humanos podem aprender a responder aos estímulos com base em uma história com uma particular relação arbitrária entre os estímulos, ou o que temos chamado um "quadro relacional". Por exemplo, se a relação é sinonímica, quando uma pessoa escolhe B diante de A, a estrutura implica que escolher A diante de B também será reforçado. A combinação de duas estruturas sinonímicas como estas constituem o caso especial chamado "equivalência de estímulos", mas, em princípio muitos outros tipos de relações podem ser treinadas (por exemplo, opostos). Em resumo, os humanos podem aprender que os estímulos arbitrários simbolizam outros estímulos porque podem responder a indicações de uma relação em si, sem a necessidade de uma história direta com um exemplo particular, (Hayes, 1986; Hayes e Brownstein, 1985).

Voltemos à minha afirmação de que o comportamento governado por regras envolve o controle por estímulos que são eficazes devido a sua natureza verbal. Podemos, agora, definir um estímulo verbal como um estímulo que tem suas propriedades eliciadoras, estabelecedoras (establishing), reforçadoras, ou discriminativas devido a sua participação em quadros relacionais (Hayes & brownstein, 1985). O comportamento verbal pode ser definido como comportamento que fornece estímulos verbais e tem sido estabelecido e mantido porque ele assim o faz (it does so). Se esta perspectiva é conveniente, deveria haver uma clara relação entre a habilidade para falar e a habilidade para responder a estímulos baseada em relações arbitrárias. Há dados que sugerem isto. Tem sido recentemente mostrado que as crianças sem linguagem ou sinalização (signing) produtiva não formam classes de equivalência (Devany, Hayes & Nelson, 1986). Se a presente análise tem validade, também deveríamos ser capazes de mostrar que os humanos podem responder aos estímulos baseados na participação desses estímulos em classes relacionais e não a partir do treino direto. Tais efeitos parecem ser comuns no controle verbal. Por exemplo, suponhamos que uma garota tem uma classe de equivalência estabelecida entre a palavra escrita GATO, a palavra falada GATO, e os próprios GATOS. Suponhamos ainda, que esta criança gosta de brincar com gatos e que se ela vê um gato, se aproximará dele e brincará com o animal. Tendo esta história, se a criança vê alguém olhando atrás da porta enquanto diz: "Oh, um gato!", ela pode ir atrás da porta SEM NUNCA TER RESPONDIDO A TAL REGRA NO PASSADO E, TAMBÉM SEM TER RECEBIDO REFORÇAMENTO PRÉVIO POR RESPONDER A ESTES ESTÍMULOS. De maneira similar, se a palavra "BOM" é um reforçador condicionado para a criança e agora lhe é dito que em Espanhol a palavra para "BOM" é "BUENO" e que em Francês a palavra para "BUENO" é "BON", parece bem provável que ela responderá à "BON" como a um reforçador condicionado, SEM QUE "BON" TENHA SIDO EMPARELHADO PREVIAMENTE COM REFORÇO. Esta transferência automática do controle dentro de quadros relacionais foi demonstrada recentemente, em experimentos, para efeitos reforçadores condicionados e discriminativos (Hayes, Brownstein, Devane, Kohlenberg & Shelby, 1985).

Baseado nesta análise, o controle verbal é realmente uma forma especial de controle de estímulo. Os estímulos verbais são essencialmente efetivos devido a sua relação arbitrária com outros estímulos - em resumo, devido a sua natureza simbólica. Quando os estímulos verbais são efetivos porque eles especificam contingências, eles são chamados regras. Os estímulos verbais também podem ter outros efeitos, como quando funcionam como reforçadores, mas por causa da importância das regras, limitarei minha discussão do controle verbal ao comportamento governado por regras no restante do capítulo.

Para resumir, considero que a questão do controle cognitivo em humanos é reduzível à seguinte questão: Quais são as contingências que poderiam produzir regras verbais e poderiam determinar a influência destas sobre outras formas de ação humana? Esta é uma classe de questões diferente daquela levantada pelos behavioristas-cognitivistas que tratam a cognição como não sendo comportamento, ou quem analisa o controle cognitivo em termos da influência de um comportamento sobre outro, sem examinar adequadamente as contingências que deram lugar e mantêm essa relação. Essencialmente, a posição cognitiva tradicional parece-se mais com uma posição estímulo-resposta, porque a resposta aberta é automática e diretamente produzida por pensamento.

Para dar uma sugestão acerca de onde isto nos levará, notemos que em minha análise, uma modificação do controle exercido por regras pode envolver a alteração das contingências envolvendo o controle verbal: SEM TER PRIMEIRO QUE MUDAR AS PRÓPRIAS REGRAS. Mas ainda, pode envolver a alternação da natureza, novamente SEM MUDAR, REALMENTE, A FORMA DA REGRA EM SI MESMA. Enquanto um leitor cético poderia colocar que a natureza especial do controle verbal ao qual eu aponto é exatamente o que os cognitivistas teóricos sustentaram o tempo todo, a ocorrência desta análise em um contexto comportamental dá lugar à conclusões e técnicas fundamentalmente diferentes.

Necessitarei discutir diversos outros aspectos das regras para tornar compreensível minha abordagem à terapia, mas deverei discutir as regras no próprio enfoque terapêutico. É a esse enfoque que me voltarei agora.

 

UM ENFOQUE CONTEXTUAL À MUDANÇA TERAPÊUTICA

Para centralizar melhor esta discussão, limitarei o que tenho a dizer ao seguinte esquema situacional: um cliente procura a terapia queixando-se de certos problemas. Quando os problemas são examinados, fica claro que o cliente acredita que seus problemas são certos comportamentos privados: pensamentos, sentimentos, atitudes, crenças, lembranças, etc. Por exemplo, ele poderia dizer que está deprimido, ansioso, aborrecido ou bravo. Ele também poderia dizer que acredita nas coisas erradas ou não consegue acreditar nas coisas certas - ele poderia, por exemplo, acreditar que ele não é bom, ou não consegue confiar nos outros. Usualmente, se o terapeuta o testa, descobrirá que o cliente sente que estas coisas são más devido a outros efeitos que parece ter. A pessoa ansiosa pode acreditar que sua ansiedade está causando comportamentos de esquiva, e a pessoa deprimida que a depressão está causando isolamento social ou falta de atividade. O obsessivo-compulsivo pode sentir que as obsessões estão levando-o a rituais sem sentido ou a uma inabilidade para concentrar-se em outras coisas. O marido ciumento pode sentir que seu ciúme o está levando a brigar. É somente clientes deste tipo que eu planejo discutir neste capítulo, mas isto não representa uma restrição importante porque qualquer terapeuta clínico verá rapidamente que a grande maioria dos adultos que são pacientes externos voluntários podem ser incluídos nesta definição.

 

O SISTEMA

Quando os clientes chegam à terapia eles trazem um excesso de bagagem com eles. Eles não só têm problemas, eles têm lutado com seus problemas, acreditam que seus problemas são causados por isto ou por aquilo, acreditam que o que eles têm que fazer para resolver seus problemas é uma coisa ou outra, ou acreditam que seus problemas são insolúveis. Estas ações e crenças originaram-se em comunidade sócio-verbal que, indubitavelmente contribuíram para que elas surgissem. Ao falar com os clientes eu gosto de chamar este contexto todo "o sistema no qual seus problemas estão sendo mantidos". Lembremos que em uma perspectiva comportamental, os comportamentos devem ser analisados em contexto. O "sistema" aponta um aspecto importante do contexto no qual os problemas dos clientes acontecem: os contextos "lógicos" da comunidade sócio-verbal.

Este sistema pode muito bem ser expressado como um silogismo lógico. Não quero dizer que os clientes realmente reconhecem a lógica disto - é mais implícito que explícito - mas simplesmente que o silogismo expressa a essência da questão. Realmente, eu uso este silogismo na terapia, mas não no início. Estou colocando-o no início agora para estabelecer um contexto intelectual para o capítulo.

O primeiro aspecto do silogismo é que TODO COMPORTAMENTO É CAUSADO. Apesar do fato de que a maioria dos clientes não são deterministas eles se posicionariam dessa maneira (for so they would claims), a sua presença na terapia sugere que, pelo menos até certo ponto, eles acreditam que seu comportamento é controlado. De outra maneira, por que eles pagariam a alguém entre 55 e 60 dólares a hora para tentar produzir algumas mudanças?. Os behavioristas tenderão a ter pouco problema com este aspecto do sistema.

A segunda proposição neste silogismo é que RAZÕES SÃO CAUSAS. Por razões entendo, simplesmente, as explicações e justificativas verbais que as pessoas dão por suas ações, crenças, sentimentais, etc. Tipicamente, estas razões são dadas em resposta a questões que, se tomadas literalmente, indagam acerca das causas, de maneira que parece sensato considerar as respostas como tentativas de descrições de relações causais. Assim, por exemplo, uma pessoa pode perguntar para alguém: "Por que você brigou com seu marido?". A resposta pode ser "Ele me deixou louca" ou "Eu não tenho gostado da maneira como ele vem me tratando". Um agorafóbico, quando se lhe pergunta: "Por que você evitou a avenida?" poderia dizer "Por que estava muito ansioso". Um depressivo, quando indagado "Por que você está restringindo tanto suas atividades?", poderia responder: "Porque não sinto vontade de fazer mais nada".

Existem, entretanto, problemas maiores quando consideramos razões como causas (Skinner, 1974). Parece extraordinariamente improvável que as pessoas tenham acesso a grande parte do material necessário para entender seu próprio comportamento. Como eu digo a meus clientes, se isto não fosse verdade, seríamos todos doutores em Psicologia. Os cientistas comportamentais têm apenas começado a entender o mais simples comportamento, do mais simples dos organismos nos mais simples dos ambientes. Vidas acadêmicas inteiras têm sido gastas na compreensão de porque um platielminte vira à esquerda em um labirinto em forma de T. Os seres humanos são organismos extremamente complexos com histórias extremamente complexas. Sabemos muito pouco acerca de tópicos chaves do comportamento humano, tais como comportamento verbal. A idéia de que o tipo de explicação verbal que damos acerca de por que fazemos coisas tem muito haver com por que realmente fazemos as coisas, é simplesmente absurda. Mesmo se uma razão for verdadeira ela é uma parte tão pequena do quadro, que é funcionalmente falsa. De maneira que, por exemplo, se uma pessoa diz que uma briga com o marido aconteceu porque "ele me deixou louca". Pode ser literalmente verdade - uma reação chamada raiva pode realmente ter estado presente - mas é funcionalmente falsa porque não sabemos (1) por que a raiva ocorreu, (2) o que mais, além da raiva, contribuiu para a briga, e (3) como a raiva veio a controlar a briga desta maneira. Presumivelmente, uma resposta compreensiva deveria analisar as contingências filogenéticas e ontogenéticas que deram lugar a todas essas considerações. Poderíamos necessitar saber, por exemplo, dados da história da pessoa em relação à raiva, brigas, controle social, etc. Infelizmente, a maioria das pessoas dificilmente conseguem lembrar o que comeram no desjejum de ontem, e muito menos que eventos no passado remoto pertencem à sua história de aprendizagem em relação a uma situação determinada. A dificuldade é maior que o mero acesso aos eventos. Mesmo se conhecêssemos TODOS os eventos da vida de uma pessoa, ainda não saberíamos como organizá-los em unidades funcionais significativas. Por todos estes motivos parece impossível que as razões possam ter muito a ver com as causas.

Isto não quer dizer que as razões não sejam um fenômeno comportamental muito interessante por seu próprio direito. As razões têm, indubitavelmente, um papel importante. Gastamos uma grande quantidade de tempo ensinando crianças a darem razões. Uma criança muito pequena, por exemplo, frequentemente responderá: "Porque sim", em resposta a um pedido de razão, mas isto não seria permitido a uma criança mais velha. Nós devemos ter uma razão para dar, em parte porque as razões são a maneira como a comunidade verbal pode determinar se uma pessoa pode ou não justificar seu comportamento consistentemente e em termos de regras de conduta socialmente estabelecidas. Assim, por exemplo, se é perguntado a uma criança pequena: "Por que você bateu em tua irmã?" e ela responde "Porque ela me deixou louco", podemos explicar à criança o que fazer quando ela "fica louca". Não estamos pedindo à criança para engajar-se em especulações científicas acerca do que causou o seu comportamento. É fácil de ver, quando examinamos respostas que podem ser mais corretas cientificamente, mas que perdem contato com as normas sociais. Suponhamos que esta mesma criança responda à mesma pergunta, da seguinte maneira: "Porque ela faz coisas que eu experimentei como aversivas". A estimulação aversiva é uma operação estabelecedora (establishing operation) que leva a um estado aumentado de reforçabilidade (maior susceptibilidade ao reforço), em relação à estimulação sensorial provida pelo bater fortemente os nós dos meus dedos contra sua cara. Além do mais, eu tenho tido uma extensa experiência em relação às consequências sociais imediatas da agressão que têm reforçado o meu "bater". Parece provável que tal resposta - mesmo que possa estar mais perto de uma descrição de causalidade na situação - teria obtido menos suporte por parte da comunidade verbal do que a resposta anterior, obviamente inadequada. Tudo isto não seria um problema tão grande não fosse o fato de que as pessoas, eventualmente, começam a levar suas razões muito à sério e as tratam como se fossem causas. Para a comunidade verbal isto é desejável porque significa que o comportamento que não pode ser justificado em termos de normas sociais é menos provável que seja emitido - não é "razoável", emití-lo.

Clinicamente, parece como se a maioria dos clientes explicasse seu comportamento parte com base em pensamentos, sentimentos, atitudes, lembranças, crenças, sensações corporais, etc. Mesmo quando os clientes não parecem estar tentando explicar o comportamento por si, eles avaliam sua vida em termos desta mesma coisa. Por exemplo, se diz que a vida da pessoa não vai bem se ela ou ele está "deprimida" ou "ansiosa". Este é um tipo de razão dada em um nível mais elevado. Para encurtar a lista, permitimos que as palavras PENSAMENTOS e SENTIMENTOS valham (stand for all) para todos os comportamentos privados que são comumente apontados como as razões para as ações humanas ou como a base para a avaliação do sucesso ou fracasso humanos. A terceira proposição do silogismo é que PENSAMENTOS e SENTIMENTOS SÃO BOAS RAZÕES.

A experiência clínica sugere a ubiquidade (onipresença) desta parte do sistema. Os clientes frequentemente vêm à terapia queixando-se de "ansiedade" ou "depressão". De maneira típica, há muitos problemas da vida real que são explicados através destes comportamentos privados. Tais pessoas podem estar isolando-se daqueles que estão em volta deles, fracassando em seus relacionamentos, evitando certas situações necessárias, etc. No caso mais raro quando uma pessoa está se comportando de maneira muito eficaz a um nível aberto e está queixando-se de depressão ou ansiedade, essa pessoa usualmente não está respondendo somente ao pensamento ou ao sentimento, mas a seu significado, de acordo com a comunidade verbal. A presença de ansiedade, por exemplo, "significa" que a vida da gente não está indo bem. Nossa área tem aceito de tal maneira este contexto geral, que nós rotulamos as desordens e os tratamentos nesses termos. Se é dito que alguém tem uma "desordem de ansiedade" estamos obviamente implicando que a própria ansiedade é o problema. Segundo meu ponto de vista, porém, é o próprio sistema que faz parecer sensato que a ansiedade seja o problema. Que evidências temos de que as pessoas tendem a utilizar os eventos privados para explicar o comportamento, e que estas explicações são vistas como "boas" razões?. Uns poucos anos atrás, Elga Wulfert, Suzanne Brannon e eu coletamos dados acerca desta questão. Elaboramos uma série de situações clínicas comuns, nas quais um cliente engajava-se em comportamento clinicamente indesejável. Depois, pedíamos a um número de estudantes da graduação que lessem a descrição e escrevessem diversas razões que o cliente provavelmente lhe daria se lhe perguntassem porque o comportamento tinha acontecido. Por exemplo, se um cliente alcoólatra ficasse bêbado, que razão ele poderia dar por este comportamento?. Cerca de 80% das razões que as pessoas listavam para uma ampla variedade de situações referiam-se somente a eventos privados, e não a eventos externos nos quais o comportamento poderia ser uma função. Quando pedíamos às pessoas que escrevessem as razões que eles próprios dariam se eles estivessem em tal situação, as respostas eram similares. Mesmo as poucas razões que apontavam a eventos externos também incluíam, tipicamente, eventos privados (por exemplo, "Ele me deixou louco quando fez X"). Pedimos, depois, a estes mesmos sujeitos, para avaliarem a validade de cada razão em uma escala de 1. (baixa validade) a 7 (alta validade). As avaliações médias eram muito altas (cerca de 5,8) e não diferiam entre as razões que envolviam puramente comportamentos privados e aquelas que envolviam o ambiente externo. Em resumo, as pessoas nos disseram que os pensamentos e os sentimentos são as razões mais comuns dadas por elas mesmas ou por outras em relação a comportamento clinicamente indesejável e que estas razões eram completamente válidas. Por favor note que, os auto-relatos nesta situação são, de fato, o comportamento de interesse. Isto mostra que a comunidade social verbal (que estabelece o sistema que estou discutindo) sustentará razões deste tipo.

A quarta proposição no silogismo flui muito naturalmente das três primeiras: OS PENSAMENTOS E OS SENTIMENTOS SÃO CAUSAS: Já tenho discutido de que maneira isto não é uma perspectiva bahaviorista radical. Em tal perspectiva, só contingências são causas. Isto não é tão arbitrário como poderia parecer. Obviamente o comportamento influencia o ambiente o qual, por sua vez, influencia o comportamento futuro. No caso das relações comportamento-comportamento, obviamente o primeiro comportamento tem propriedades de estímulo que podem contribuir para o controle do segundo. Podemos notar nossos próprios pensamentos, por exemplo, justamente como poderíamos ouvir instruções dadas por outros. Porém, há uma boa razão para levar a sequência de volta ao nível ambiental antes de chamar um evento de causa. Do ponto de vista pragmático da ciência adotada pelo behaviorismo radical, o propósito da análise de contingências é permitirmos a predição, o controle e a compreensão dos fenômenos. Se permitirmos que o comportamento seja considerado a causa do comportamento, isto pode levar diretamente à predição mas não ao controle. Não podemos manipular o comportamento diretamente - somente podemos manipular os eventos ambientais (ver Hayes e Brownstein, 1986a, 1986b) para discussões mais detalhadas destas questões. Assim, os comportamentos - e seus produtos, os estímulos privados - podem participar completamente nas relações causais, mas não deveriam ser vistos em si próprios como causas de outros comportamentos do mesmo indivíduo. Em qualquer caso, eu só quero notar aqui que a perspectiva que estamos analisando difere dramaticamente de uma perspectiva behaviorista radical, mas não de uma perspectiva cognitivista-comportamental.

A quinta proposição é um requisito lógico: PARA CONTROLAR O RESULTADO DEVEMOS CONTROLAR SUAS CAUSAS: Para que a palavra CAUSA signifique o diz, este é um truísmo.

Com estas cinco proposições a armadilha está acionada, porque deve seguir-se logicamente que PARA CONTROLAR O RESULTADO DEVEMOS CONTROLAR OS PENSAMENTOS E SENTIMENTOS. No início, pode não ser evidente por que isto é uma armadilha. Realmente, o campo da psicoterapia (especialmente a terapia comportamental) tem definido frequentemente seus procedimentos em termos de controlar os pensamentos e sentimentos. Assim, por exemplo, falamos facilmente de "procedimentos de manejo (management) da ansiedade", ou de "re-estruturação cognitiva". A Psicologia tem sido quase completamente inserida dentro da corrente cultural predominante que dita a necessidade de controlar os eventos privados para viver uma vida bem-sucedida. Há boas razões para acreditar porém, que a intenção de controlar os pensamentos e sentimentos é frequentemente contra-produzente (counterproductive) particularmente com pessoas que apresentam desordens clínicas.

Até certo ponto, a última afirmação é o tema central de todo capítulo; eu posso, assim, fazer somente uma defesa parcial desta colocação, no presente. O fato de que tentativas deliberadas de fazer alguma coisa são, de fato, instâncias de comportamento governado por regras. Quando acrescentamos qualificadores à ação humana, tais como, "deliberada, proposital, consciente, intencional", etc., fazemos assim porque reconhecemos que o comportamento não é somente modelado pelas contingências. Não se diz, por exemplo que os infra-humanos fazem alguma coisa "deliberadamente" - eles o fazem ou não o fazem baseados na situação atual e na sua história prévia. Assim, tentativas deliberadas para controlar os sentimentos e os pensamentos resumem-se em tentativas de controlar os pensamentos e os sentimentos seguindo uma regra (por exemplo, "Não sinta X"). Na maioria das situações clínicas o sentimento ou o pensamento que estamos tentando controlar é visto como problemático e, assim, a meta é livrar-se deles ou, de alguma maneira diminuí-los.

Consideremos o que é provável que aconteça, porém, se usamos uma regra para, por exemplo, livrar-mos de um pensamento. Para conseguir isso, devemos especificar o pensamento a ser eliminado. O pensamento, porém, deve estar em uma classe relacional com a regra, para ser especificado. Isto é, as palavras contidas na regra devem, até certo ponto, serem equivalentes à forma do próprio pensamento. Sob estas condições, a regra em si mesma realmente ajudará a criar o próprio evento privado que a pessoa está tentando evitar. Os obsessivos-compulsivos tentam, frequentemente, seguir regras tais como: "Você não deve pensar acerca de ferir outras pessoas". Uma regra desta classe provavelmente criará pensamentos acerca de ferir outras pessoas porque contêm eventos que estão em uma classe de equivalência com o pensamento. Assim, quanto mais tentamos seguí-la fica pior. Discutirei este concento e a base teórica do mesmo com maior profundidade quando eu descrever minha aproximação à terapia.

Por enquanto só é necessário reconhecer que estou levantando a questão de que há um problema: de acordo com o sistema em que estamos inseridos em virtude da nossa participação nesta comunidade verbal, a meta de um cliente provavelmente seja eliminar pensamentos e sentimentos através do seguimento de uma regra. Isto pode ser fundamentalmente falho por que, apesar das aparências em contrário, não necessitamos mudar os pensamentos e sentimentos para mudar outros comportamentos ou levar uma vida bem sucedida; assim, os pensamentos e sentimentos não são o problema, de qualquer maneira. Além do mais, tentar eliminar os pensamentos e sentimentos deliberadamente é, com frequência, ineficaz. Se isto é assim, o sistema sócio-verbal que temos estado descrevendo cria uma armadilha que pode frustar as tentativas de mudar a situação de vida atual de uma pessoa. Ver os pensamentos e os sentimentos como o "problema" é, em si mesmo, parte do problema. Além disso, as soluções geralmente propostas para este "problema" também são parte do problema.

 

DISTANCIAMENTO COMPREENSIVO (Comprehensive Distancing)

Durante os últimos sete anos tenho desenvolvido um enfoque particular à terapia baseado na intenção de enfraquecer o sistema que tenho descrito. Ele não é tanto um conjunto de técnicas como um contexto no qual diversas técnicas podem ser incluídas. Cada cliente que chega e que se encaixa na descrição que dei no início desta seção é provavelmente tratado dentro deste contexto. O enfoque é chamado distanciamento compreensivo. De maneira típica, as primeiras sessões depois da avaliação inicial serão utilizadas para o estabelecimento deste contexto de trabalho. Depois disso, faço muitas das coisas que outros terapeutas fazem, mas deste contexto. Eu acredito que este enfoque transcende a distinção entre terapia cognitiva e terapia comportamental na medida em que é um enfoque organizado em bases comportamentais que pode incorporar os conjuntos de técnicas dos dois tipos de terapia. O distanciamento compreensivo tem diversas metas que podem ser arranjadas mais ou menos de acordo com a sua sequência normal em terapia.

 

META 1: ESTABELECER UM ESTADO DE DESESPERANÇA CRIATIVO

Quando as pessoas vêm à terapia elas prontamente descreverão aspectos de sua vida que elas sentem que devem ser mudados. Os problemas são identificados e são propostas soluções com base em nossa história com uma comunidade verbal que nos ensina a avaliar nossa vida e a modificar eventos de acordo com isto. Este é o "contexto sócio-verbal" de nossos problemas. Por "contexto" eu considero simplesmente as contingências e conjuntos de contingências; as contingências são sócio-verbal no sentido de que elas são estabelecidas e mantidas por uma comunidade de organismos verbais . Em um enfoque contextual à mudança terapêutica, não são necessariamente os "problemas" que são problemáticos, mas o contexto sócio-verbal em que ocorrem.

Há três contextos maiores e relacionados (i. e., conjunto de contingências) que são estabelecidos pela comunidade sócio-verbal. Primeiro há o contexto de literalidade. As palavras têm significados e os eventos são categorizados do ponto de vista conceitual com base na maneira como a comunidade verbal refresca constantemente as relações entre vários estímulos. Por exemplo, a palavra ANSIEDADE é usada mais e mais vezes na conversação do dia-a-dia e cada vez que é usada uma outra unidade (bit) de aprendizagem ocorre. A ansiedade significa que, isto é chamado ansiedade, a ansiedade é ruim, etc. É como no exemplo anterior de escolha de acordo com o modelo, envolvendo uma criança e o wheezu, com a diferença de que as tentativas nunca terminam. Isto é o que quero dizer com "contexto de literalidade". É tão onipresente que é difícil vê-lo como um contexto - é como um peixe tentando ver água como água. Realmente, à medida que você lê este capítulo você está nadando no próprio mar que estou apontando. Você não vê estas palavras como rabiscos em um papel; você vê (ou, mais frequentemente, quase "escuta") as "próprias palavras". Exatamente da mesma maneira, quando uma pessoa tem um pensamento, ele imediatamente "significa alguma coisa" quer este significado contribua ou não para a vida bem sucedida. A pessoa pode aparentemente ter que responder ao significado do pensamento DADO ESTE CONTEXTO. Uma determinada relação comportamento-comportamento é estabelecida.

Segundo, há o contexto de dar razões. Eu já expliquei este contexto com algum detalhe. De acordo com a comunidade sócio-verbal, certos eventos explicam outros eventos. Este contexto pode, então, contribuir para o controle pela presença ou ausência destes mesmos eventos, Por exemplo, uma pessoa deprimida pode explicar com toda sinceridade que é impossível desempenhar alguma ação devido a uma falta de energia. De fato, a pessoa receberá algum grau de sustentação em relação ao sentido da explicação. Assim, um sentimento chamado "falta de energia" pode realmente vir a controlar o comportamento DADO ESTE CONTEXTO. Uma determinada relação comportamento-comportamento é estabelecida. O contexto de dar razões é tão poderoso e permeia tudo, tanto que o leitor pode pensar que é estranho colocar que uma pessoa poderia realizar uma ação sem alguma energia. Estou sugerindo que, dados outros contextos, as podem de fato comportar-se energicamente E SENTIR que elas não têm qualquer energia. Se isto parece improvável temos aí a evidência de um contexto de dar razões na comunidade sócio-verbal que nos influencia a todos. Dado tal, contexto, se nós sentíssemos que não tínhamos nenhuma energia, pareceria "razoável" refrearmo-nos de fazer qualquer coisa que demandasse energia.

O contexto final é o do controle. Baseando nossa lógica na literalidade e em dar razões, chegamos a acreditar que certas coisas devem mudar antes que outras possam fazê-lo. Isto é, devemos controlar A para que aconteça B. Uma pessoa deve livrar-se da depressão para ser feliz. Uma pessoa deve se livrar da ansiedade para poder realizar coisas assustadoras. Assim, a presença de A deve aparentemente levar a esforços para livrar-se de A, DADO ESTE CONTEXTO. Outro tipo de relação comportamento-comportamento é estabelecida.

Eu acredito que cada um destes contextos pode produzir resultados patológicos em determinados momentos. Desde que cada um deles é um conjunto de contingências estabelecidas e mantidas pela comunidade verbal dominante, a primeira meta da terapia deve ser criar uma nova comunidade verbal, que opera dentro de um contexto diferente -isto é, dentro de um conjunto diferente de contingências. Isto é muito difícil porque o cliente traz uma história comportamental consigo. Assim, quando um terapeuta diz alguma coisa para um cliente isso é ouvido nos contextos que necessitam ser mudados.

Por estas razões, minha primeira meta na terapia é desafiar estes contextos. A única maneira que eu conheço de fazer isso é comportar-se de maneira que não se encaixe nestes contextos. Os contextos de literalidade, de dar razões, e de controle são tão fundamentais que é impossível alterá-los comportando-se "razoavelmente". Muitas das intervenções comportamentais "hard-nosed" tradicionais, por exemplo, tentam ignorar estes contextos sem desafiá-los diretamente. A longo prazo, esta estratégia parece fadada a fracassar se os próprios contextos são parte do problema, porque deixa tais contextos ignorados mas intactos. A única maneira de alterá-los é fazer coisas que não se encaixam neles.

A seção seguinte é uma aproximação grosseira do que deveria ser dito na primeira sessão terapêutica depois da fase de avaliação inicial. Ao longo de grande parte do restante do capítulo, irei alternando as descrições de sessões, com textos à parte para o leitor. Pressuporei que o cliente tem uma "desordem de ansiedade", tal como agorafobia, uma vez que esta desordem representa muito bem algumas das principais dinâmicas do sistema no qual os clientes funcionam. Apesar de que a maioria das descrições de casos será hipotética (no interesse da eficiência e clareza), virtualmente toda sentença dentro destas descrições são afirmações que eu tenho realmente dito, ou um cliente tem realmente dito. Elas não são meramente "inventadas".

TERAPEUTA: Quero começar a estabelecer algum trabalho de base em relação a seus problemas. Você vê, você veio aqui procurando uma solução para estes problemas, mas eu me preocupo (worried lest) que acabemos fazendo primeiro coisas que te afundarão mais ainda nesses problemas. Pode ser difícil visualizar que parte do problema é o que você tem estado chamando "a solução". Você tem uma idéia do que você necessita para ser capaz de lidar com estes problemas, mas você teve estas idéias antes de vir aqui. Você tem tentado isto e aquilo. Você não se pergunta algumas vezes por que estas coisas não funcionam? É claro, algumas vezes parecem funcionar, mas ultimamente não - de outra maneira, você não estaria aqui. Bem, o que aconteceria se o problema fossem as próprias soluções que você tem tentado. É como se uma pessoa que veio ao médico com dor de cabeça tenha estado tentando curar essa dor batendo-se na cabeça. O primeiro trabalho que o médico teria, seria parar com os golpes. Bem, nós estamos numa situação exatamente como essa. De maneira que eu não posso simplesmemte correr e tentar ajudar. Primeiro tenho que parar com o que tem estado fazendo com que as coisas paralisassem. Para conseguir isso você terá que permitir que eu assuma considerável controle sobre as próximas sessões. Eu quero que você saiba, porém, que isto não é maneira como a terapia será permanentemente. Você pode pensar, por momentos, em relação às próximas sessões que eu estou somente te confundindo ou que não estou mesmo te ouvindo. Isto é parte do que precisa acontecer para quebrar o sistema que tem te mantido paralisado.

Meu propósito, nestas afirmações de abertura, tem a ver com duas coisas: colocar sobre a mesa que eu não farei o que o cliente espera que eu faça e que eu quero a permissão do cliente para assumir temporariamente o controle que necessito para conseguir que um bom trabalho seja realizado. Quero que o cliente entre para a terapia com advertências justas.

TERAPEUTA: Se deixamos de lado todos os detalhes, você está dizendo que o que você necessita para ser capaz de avançar em sua vida é livrar-se de uma emoção indesejável: a ansiedade. Se você pode eliminar, reduzir, manejar ou de alguma outra forma controlar sua ansiedade, ENTÃO você poderá avançar. Em outras palavras, a ansiedade é o problema: enquanto está aqui, pelo menos enquanto ela é tão intensa, sua vida nunca funcionará.

CLIENTE: É isso mesmo. Ninguém pode viver com a ansiedade que eu sinto.

TERAPEUTA: O.K. E o que você quer perceber é que uma grande quantidade de comportamento tem emergido desde esta perspectiva. Você tem realmente se esforçado para atingir esta meta. Você fez tudo o que você sabe à respeito.

CLIENTE: Sim, mas nada tem realmente funcionado. Algumas coisas funcionam um pouco - não sei o que faria sem tranquilizantes, por exemplo. Porém, não tenho feito a lista ainda.

TERAPEUTA: E você está aqui para que eu te ajude a fazer isso, mas o que eu quero que você saiba desde o começo é que eu não posso e não o farei. Você pensa que há uma saída; que você só não tem a técnica certa. De maneira que eu suponha que você quer que te forneça a técnica certa. NÃO TENHO ESSA TÉCNICA PARA DAR. Ela não existe. Não há saída. Dentro do sistema em que você está funcionando você está preso. Olha, você não tem o sentimento de que você não tem esperanças? Você não tem pensado nisso?. E isso assustou você, não é?. Bem, sinto muito por ser eu aquele que lhe diga isso, mas seus temores são adequados. Mantida a situação da maneira como você o faz, a situação não tem esperanças. Sem brincadeira. Sei o que estou falando. Não há saída.

CLIENTE: Bem, então por que estou vindo ver você? Por que pago a você para que me ajude?. O que você pode fazer por mim?

TERAPEUTA: Não sei. Eu certamente não vou te ajudar a se livrar da sua ansiedade, a se livrar de seus temores, a colocar todos os seus pensamentos enfileirados. Você tem jogado esse jogo durante anos e NÃO TEM FUNCIONADO. Você sabe disso. Bem, eu estou aqui para te dizer que nunca funcionará.

CLIENTE: Você quer dizer que estou sem esperanças. Deveria desistir.

TERAPEUTA: De certa maneira, sim. Realmente, VOCÊ não está sem esperanças. Mas o sistema dentro do qual você funciona não tem esperança de funcionamento. Ele nunca fará você funcionar.

CLIENTE: Então, qual é o outro sistema?. Você parece implicar que há outro caminho?

TERAPEUTA: Bem, primeiro, não há outra maneira de conseguir realizar o que você quer. Há uma maneira pela qual sua vida deixe de estar paralisada, mas neste momento não posso lhe dizer qual é, porque você não me ouviria. Você ouviria as palavras e em primeiro lugar as colocaria rapidamente dentro do mesmo velho sistema em que está o problema real. Esse sistema está em todo lugar. Está neste quarto exatamente agora. De fato, posso dizer em completa confiança que o que você pensa que estou tentando dizer não é o que estou dizendo em absoluto. Se você pensa que você me entende neste momento, quero que você saiba que o que você pensa que estou falando não é o que estou dizendo.

O uso de "paradoxos" desta maneira, se feito com moderação, é uma das maneiras mais rápidas de afrouxar o sistema verbal com o qual o cliente chaga à terapia. Coloca os clientes em uma posição insustentável: se eles o entendem, eles não o entendem. Este é um ataque direto ao contexto da literalidade. A medida que os clientes percebem suas opiniões acerca do que o terapeuta está dizendo, eles também não podem tomá-las literalmente porque o que quer que eles pensem lhes é dito que não é assim. Isto permite ao terapeuta dizer coisas aos clientes que não teriam um impacto se a afirmação tivesse primeiro que ser entendida para ser útil.

TERAPEUTA: Permita-me lhe dar uma metáfora que poderia ajudar você a ver o que estou dizendo. A situação em que você está é algo semelhante a isto. Imagine um grande campo. Você está com os olhos vendados, lhes são dadas algumas ferramentas, e lhe é dito para correr pelo campo. Você não sabe, mas há buracos no campo eles estão bem espaçados, mas você acaba caindo dentro de um deles e tenta sair. Você não sabe exatamente o que fazer, de maneira que você pega a ferramenta que parece mais útil e você tenta sair. Infelizmente, a ferramenta que lhe deram é uma pá. E você cava e cava. Mas cavando, com uma ação que faz buracos e não com uma ação que vai ajudá-lo a sair. Você pode tornar o buraco mais profundo ou mais largo, ou pode haver toda uma classe de passagens que você pode construir, mas provavelmente ficará preso dentro do buraco. Então você tenta outras coisas. Você tenta calcular como foi que caiu no buraco. Tenta pensar: "se eu não tivesse virado à esquerda naquela elevação, não teria caído no buraco". E, é claro, isso é estritamente verdade, mas não faz nenhuma diferença. Mesmo se você soubesse cada passo que você tomou, você não sairia do buraco. De maneira que não vamos perder tempo demais tentando descobrir os detalhes de seu passado - muitos destes surgirão por outros motivos e lidaremos com eles, mas não de maneira que você saia do buraco em que você está. Outra coisa que você pode fazer quando você está dentro do buraco é tentar encontrar uma pá realmente grande. Você pensa que talvez esse seja o problema: você necessita de uma pá a vapor folheada a ouro. Mas eu não o farei, e mesmo se o fizesse eu não faria nenhum bem porque as pás não ajudam as pessoas a saírem de buracos. Para sair de um buraco você precisa de uma escada e não de uma pá.

CLIENTE: Então, qual seria a escada? Como faço para sair?

TERAPEUTA: Veja, a razão pela qual eu não posso responder a isso agora é que não lhe faria nenhum bem a menos que você deixe de lado sua determinação de cavar para sair do buraco. Neste momento, se lhe fosse dada uma escada tentaria cavar com ela. De maneira que me deixe voltar a isso e dizer que não podemos começar a progredir até que você realmente comece a encarar o fato de que não há saída, devido a forma como você está agindo. Não importa como você o faça, você não pode cavar para sair do buraco. Cavar mais depressa não funcionará. Colocar mais reforço nisso, não funcionará. E não há espaço para fazer o que funcionaria a menos que você deixe de lado a pá.

Usualmente eu paro neste tópico durante algumas sessões. Utilizo diversos outros tipos de metáforas para que o ponto seja entendido. As metáforas são excelentes meios de falar com os clientes porque permitem que o terapeuta utilize a linguagem sem ter que usá-la literalmente e, assim, sem fortalecer o próprio contexto que cria, em primeiro lugar, o problema. Tudo quanto os clientes expressam durante esta parte do tratamento - frustração, determinação, cooperação irrefletida - nada mais é que outros comportamentos que estão fortalecidos e o único comportamento que está realmente fortalecido é, por definição, o comportamento que não funcionou no passado. Assim, eu faço notar o que o cliente está fazendo e aponto que esse comportamento também é um recurso velho e que não funcionará. A meta é estabelecer um estado de desesperança criativo. Isto é, quero todas as vias de fuga cortadas para que o comportamento controlado pelos contextos de literalidade, de dar razões e de controle possam ser parcialmente enfraquecidos. Isto permite que o cliente comece a engajar-se em alguns novos comportamentos que existem somente fora destes contextos e que poderiam realmente funcionar. Também tende a aumentar grandemente a motivação do cliente para a mudança. Na linguagem do comportamento governado por regras, serve como um AUMENTADOR (AUGMENTAL) isto é, como uma regra que trabalha, em parte, mudando o valor reforçador de certas consequências (Zettle & Hayes, 1982). Neste caso, encontrar uma nova maneira de abordar esta situação é de importância primordial. É então que os clientes realmente começam a procurar seus pressupostos de uma maneira como nunca o fizeram antes.

Indubitavelmente, alguns leitores vêem este enfoque como severo ou mesmo perigoso. Poderia de fato sê-lo se os clientes sentissem que o terapeuta estivesse criticando-os ou que o terapeuta estivesse dizendo que eles mesmos não tinham esperanças. A questão que deve estar presente na sessão, entretanto, é a de que, trata-se de um desafio ao sistema que os paralisa e não um desafio a eles próprios como pessoas. Eu conduzo isto de uma forma firme, confrontacional, mas de abordagem confusa. Eu não os estou atacando - estou atacando o sistema. Um breve piscar de olhos ajuda a tornar isto claro. A maneira como o enfoque realmente funciona em terapia pode ser vista a partir do seguinte diálogo que consta na transcrição de um "workshop" que dei para terapeutas clínicos e ao qual estava presente um de meus clientes agorafóbicos:

COMENTÁRIO DA AUDIÊNCIA: Estou surpreso que eles tenham voltado para uma segunda sessão.

SCH: Nunca aconteceu que um cliente desistisse neste ponto. Usualmente eles estão bem interessados - nunca alguém falou com eles desta maneira.

AUDIÊNCIA: Eu detestaria que um cliente saísse e cometesse suicídio quando você diz que não há saída.

CLIENTE SENTANDO-SE: Junto com essa pancada vem também um sentimento de esperança. Quando alguém vai à terapia, o faz pensando que fez tudo que podia. Quer que o terapeuta faça uma mágica, mas no fundo sabe isso não é possível. Se fosse, você já o teria feito. Você se sente aliviado de ouvir que você já tentou tudo. E com isto você sente esperança porque calcula que ele deve saber alguma coisa que você não sabe. De maneira que não se criam sentimentos suicidas. Você não consegue esperar para descobrir aonde ele quer chegar com tudo isso.

Frequentemente, no começo da terapia tento distinguir culpa de responsabilidade, o que ajuda a aliviar a possibilidade de uma reação improdutiva a uma confrontação do sistema do cliente. A metáfora do homem-no-buraco pode ajudar a entender este ponto, como foi descrito antes.

TERAPEUTA: Há algo que quero que você note em relação a isto. Na metáfora não é culpa da pessoa o fato de ter caído no buraco e também não é sua culpa que não pudesse sair. Se não tivesse sido este buraco poderia ter sido outro. Falha e culpa são estabelecidos quando acrescentamos condenação social para tentar motivar alguém a mudar. Você não necessita isso. Você já está motivado para mudar. Então, não é culpa sua. Você não deve ser culpado. Você é, porém, responsável no sentido de responder habilidosamente. Você tinha uma habilidade para responder de maneira diferente na situação do que você o fez. Você somente não sabia o que fez. Você não tinha que cavar anos furiosamente, como você o fez. Se isso não é verdade, então nada pode ser feito agora, então não tente evitar a responsabilidade - somente saiba que a habilidade para responder não é o mesmo que culpa. Nós não necessitamos de culpa por aqui. As próprias consequências são suficientemente aversivas sem ter que colocar a condenação social no topo disso. Quero que saiba que está muito claro para mim que você gostaria que sua vida funcionasse. Se você soubesse o que fazer você o teria feito.

Teoricamente, o propósito de tudo isto é começar a estabelecer um conjunto diferente de contingências que os contextos de literalidade, de dar razões, e de controle. Usando afirmações tais como: "O que você quer que eu faça não posso fazer" ou "O que você me escuta dizer não é o que estou dizendo", eu ataco a literalidade e o dar razões. Levantar a questão da responsabilidade é feito para dizer à pessoa que estamos realmente falando de comportamento: há coisas a serem feitas. A metáfora de cavar é utilizada para começar a atacar o contexto de controle, o qual abordarei agora.

 

META 2: O problema é o controle

A próxima questão que é tipicamente encoberta é a natureza do sistema que criou a armadilha. Como é aparente a partir da última seção, acredito que a natureza disto é a tentativa inapropriada de controlar comportamentos privados. Este esforço é baseado no ponto de vista de que estes comportamentos são, em si mesmos, causas das principais dificuldades da vida. Em vez de estender-me em minhas análises racionais teóricas (theoretical rationale) para fundamentar este ponto, irei diretamente a uma descrição do enfoque assumido com os clientes.

TERAPEUTA: A situação em que você está é, em parte, semelhante a de uma pessoa que tenta lidar com um sistema de endereços públicos inapropriadamente laborado (placed). Você já esteve em palestra e ouviu, de repente um guincho?. Bem, o que acontece é que o palestrante está muito perto do microfone dada a instalação dos amplificadores. Quando o palestrante fala no microfone, o som é aumentado pelo amplificador e é enviado para fora dos autofalentes. Se o som é captado novamente pelo microfone e está somente um pouco mais alto desta vez, comparando à primeira, então, tão rapidamente quanto a velocidade do som e da eletricidade, o som será amplificado, captado, amplificado, captado, amplificado, etc. O resultado é um guincho de feedback. Você está em um tipo de situação semelhante. O som é emoção. O guincho de feedback (Feedback screech) está sendo dominado ou controlado por sua emoção. Mas note que poderíamos facilmente sentir, em tal situação, que o próprio som é o problema. Assim poderíamos viver nossas vidas ansiosos, tentando não fazer ruídos. Mas o ruído não é o problema. O problema é o amplificador. Não quero ajudar a viver sua vida muito quietamente. Eu quero ajudá-lo a encontrar o amplificador e desligá-lo. Quando você fizer isso, ainda haverá ruídos (i e., ansiedade), e talvez ele seja frequente e alto e talvez não. De qualquer maneira não será dominador.

CLIENTE: Então, o que é o amplificador?. Como posso desligá-lo?

TERAPEUTA: No mundo real, um amplificador é utilizado para regular e modular o volume de um determinado som. É a mesma coisa aqui. Seu amplificador é a parte de você que está perdendo seu tempo regulando e modulando suas emoções - ou, pelo menos, tentando fezê-lo. Em uma palavra: "controle".

Na maior proporção da existência humana, consciência, controle proposital funcionam muito bem. É o que tem feito a humanidade, tal como ela é hoje. A regra é: "Se você não quer alguma coisa, calcule como livrar-se dela, e livre-se". Essa regra funciona maravilhosamente bem no domínio das coisas físicas em nossa vida. Se você não gosta da pobreza, consiga um trabalho. Se você não gosta de sujeira no chão, limpe-o. Isto não é para ser ridicularizado ou minimizado. Se você examina o que o resto dos seres vivos está fazendo, representa um grande avanço. Estamos quentes e secos devido a nossa habilidade para pensar coisas e seguir tais regras; isto é, devido ao controle consciente. É um problema, porém, que o mesmo sistema que funciona tão bem para nós, como espécie, possa ser um desastre para nós nas áreas que determinam o grau em que estamos satisfeitos com nossas vidas. Quando você aplica o sistema do controle consciente ao mundo de nossa experiência privada, a regra muda de maneira fundamental. Neste domínio a regra é: "Se você não quer tê-lo, você o tem". Em outras palavras, tentativas de controlar seus pensamentos e sentimentos como para livrar-se dos que são "maus" levará você a estar paralisado e controlado por estes mesmos pensamentos e sentimentos. Isto é o que eu quis dizer com a pessoa com a pá: cavar é simplesmente a tentativa de controlar o que você pensa e sente.

Imagine isto. Suponha que tivesse amarrado você a um polígrafo muito sensível. É uma máquina tão refinada que simplesmente não há maneira de você ficar ansioso sem que eu saiba. Agora imagine que eu elhe tenha dado uma tarefa muito simples: não sentir-se ansioso. Porém, para ajudá-lo a motivar-se eu pego um revólver. Eu lhe digo que para ajudá-lo nesta tarefa segurarei o revólver contra sua cabeça. Enquanto você não ficar ansioso não atirarei em você, mas se você ficar, eu atirarei. Você pode ver o que acontecerá?

CLIENTE: Com certeza eu levarei um tiro.

TERAPEUTA: Correto. Não há maneira de você seguir esta regra. Se é fundamental não estar ansioso, adivinha como você estará?. Esta não é uma situação remota. É exatamente a situação em que você está agora. Em vez de um polígrafo, você tem algo muito melhor: seu próprio sistema nervoso. Em vez de um revólver, você tem sua própria auto-estima ou seu sucesso na vida, aparentemente, na linha de fogo. Então, imagine como você estará?

Você não tem notado que a coisa mais deprimente que existe é tentar aniquilar sua própria depressão?. A raiva parece deixar você louco, a ansiedade deixa você ansioso. É uma armadilha. Estamos aplicando uma regra que funciona perfeitamente bem em uma situação à uma situação na qual a mesma é um desastre. E isto não acontece só com sentimentos. Suponhamos que você tem um pensamento que você não permite. De maneira que você tenta não pensá-lo. Isso funciona, não é?. Tente agora. Não pense em rosquinhas recheadas; não pense em carros de corridas; não pense em sua mãe. Adivinhe no que você pensa?

CLIENTE: Acredito que vejo o problema. Mas, qual é a alternativa? Ninguém poderia estar tão ansioso como eu e, ao mesmo tempo, estar calmo.

TERAPEUTA: Bem, uma coisa que você deveria notar é que você realmente não sabe como seria sentir ansiedade quando você não estivesse também tentando controlá-la. Seria como uma pessoa que tivesse gasolina pelo chão todo e estivesse convencida que o fogo é uma coisa horrível. No contexto da gasolina, é. Mas pode ser que não o seja em um outro contexto. Em outras palavras, quando a ansiedade não é mantida no contexto de tentativas deliberadas para controlá-la, a ansiedade pode funcionar de maneira muito diferente.

CLIENTE: Você quer dizer que se eu desejar estar ansioso, a ansiedade irá embora?

TERAPEUTA: Eu não disse isso. Eu disse que poderia funcionar de maneira diferente. Se a ansiedade está presente ou ausente, isso é uma outra questão. Se você estar ansioso, uma de duas coisas acontecerão: ela irá embora... ou não.

CLIENTE: Muito engraçado.

TERAPEUTA: Não, olhe. Eu não estava tentando ser engraçado. Se você quisesse sentir-se ansioso para conseguir que a ansiedade fosse embora, então você NÃO ESTÁ querendo ser ansioso e a ansiedade não irá embora. Você não pode enganar a si mesmo. Este não é um truque. Se você deseja estar ansioso, então você estar ansioso. Quando você considera as coisas desta maneira, as únicas palavras para descrevê-las são: "Ou você estará ansioso ou não". Em outras palavras, o resultado não é mais a questão.

CLIENTE: Mas eu quero me ver livre de minha ansiedade.

TERAPEUTA: Realmente. E você age como se realmente se importasse, então, se você resistir, mais cedo ou mais tarde você terá o que quer. Sabe o que?. A realidade não importa. Sua experiência lhe diz que tentar livrar-se da ansiedade não funciona. De maneira que, no que você acreditará?. Suas crenças ou sua experiência?. Se você percebe que você quer livrar-se da ansiedade a questão é: você toma isso de maneira literal?. Você vai seguir esta regra?. Se a resposta é afirmativa, você ficará paralisado. E claro, querer ver-se livre da ansiedade é também algo que simplesmente acontece - você não necessita controlar este pensamento ou sentimento. De maneira que eu não estou pedindo a você para que pare de querer livrar-se da ansiedade. Estou sugerindo que você não tome esse pensamento literalmente. Estou sugerindo que o nome da trama em que você está é "controle", e que se você continuar tentando livrar-se de seus pensamentos e sentimentos antes de progredir em sua vida, você continuará paralisado. Estou dizendo que a maneira como funciona é: "Se você não quer tê-lo, você o tem".

CLIENTE: Estou confuso.

TERAPEUTA: Bom. Se você entende isto intelectualmente, talvez não seja bem isso. Confusão é o que acontece quando o sistema que paralisou começa a sucumbir. Não estou sugerindo que você TENTE CALCULAR tudo isto. Se isto tem valor, você entenderá este valor independentemente de calculá-lo, de especular sobre ele (figuring it out).

Como deveria estar claro, tudo isto é uma tentativa deliberada de atacar os três contextos problemáticos" "Se você não quer tê-lo, você o tem", é um bom ditado porque se o tomamos literalmente, não há nada que possa ser feito com ele. Tentar usar esta regra para livrar-se da ansiedade viola a regra imediatamente. Ela não pode ser utilizada razoavelmente e não pode ajudar no controle. Assim, o cliente fica confuso. Os contextos sócio-verbais normais não se "encaixam". Esta parte da terapia pode levar uma sessão inteira ou mais. Exemplos múltiplos e metáforas são utilizados. Por exemplo, com um homem que teve problemas em relação a disfunção sexual, eu relacionaria o que estou dizendo à tentativa de evitar estar sexualmente impossibilitado. A maioria dos homens experimentaram a estranha sensação de que ao tentar evitar a perda de uma ereção inevitavelmente esta situação é criada. Quando o cliente começa a ver que o controle é o que ele ou ela estiveram tentando fazer funcionar, começo a expandir esta perspectiva e a apontar uma alternativa.

TERAPEUTA: Pense em duas escalas, cada uma indo de 1 a 10. Chamemos uma de ansiedade e a outra controle. Por "controle" quero dizer tentativas deliberadas ou propositais de controlar suas experiências privadas. Você veio aqui com a ansiedade a 10 e o controle a 10. O que você está me pedindo para fazer é baixar a ansiedade a 1. mas isso é o que você tem tentado fazer o tempo todo. Isso não funcionou. Você sabe disso. O que você pode não perceber ainda é que nunca funcionará. A ansiedade não pode deixar de estar paralisada, enquanto a escala de controle estiver a 10. O que eu quero fazer é baixar o controle a 1; então a ansiedade irá onde quer que vá. Ela fica livre para mover-se. Quando o controle é alto e a ansiedade é alta, a ansiedade está paralisada porque agora a ansiedade é algo acerca do qual estar ansioso - ou seja, que se alimenta a si mesma.

Se o que estou dizendo é verdade, parece estranho que possamos estar paralizados nisso durante tanto tempo - literalmente anos. Posso pensar em quatro razões porque isto poderia acontecer. Primeiro, o controle deliberado funciona muito bem em muitas outras situações. Você aprendeu que se inicialmente você não é bem sucedido, você tenta, tenta de novo. Você sabe que usualmente o esforço consciente faz diferença. Pode ser difícil ver que a regra não funciona nesta situação. Segundo, foi-lhe dito que isto é o que você deve fazer. Quando você era muito pequeno você já ouvia coisas como: "Não tenha medo", ou "Não chore"- "Não há pelo que chorar". A mensagem era que você podia controlar seus sentimentos e pensamentos e, além disso, você devia fazê-lo para ser bem sucedido na vida. Era importante ser capaz de fazer isso, ou assim foi-lhe dito. Terceiro, você olhava em volta e, com certeza, outras pessoas pareciam ser capazes de conseguir isto muito bem. Outras pessoas não pareciam estar tão assustadas, ou inseguras ou o que quer que fosse. É claro, isso era frequentemente só por fora. Agora, estas duas coisas sozinhas provavelmente não o fariam - não manteriam você paralisado indefinidamente. Mas a pessoa que se queixa (Kicker) é a última razão: parece até funcionar com você. Parece por exemplo, suponhamos que você está aborrecido com um "mau pensamento". Você tenta livrar-se dele distraindo-se. Com certeza, quando você se distraia, ele "irá embora". Assim, o efeito imediato parece confirmar a regra. O problema é que ele volta e, frequentemente, volta mais forte. Assim, nós fazemos algo mais isto vai de forma circular, até que estejamos nesta monstruosa luta com nossos próprios sentimentos. Por exemplo, eu aposto que em algum momento - provavelmente quando você era muito novo, você percebeu que, no fundo, deveria haver algo errado com você. O que você fez então?. Você tentou ser bom, ou revoltar-se - realmente a mesma coisa. Você "fez fita". Você tentou obter aprovação social. E muito disto pareceu funcionar. Mas você percebeu que a insegurança básica ainda está aí?. Não só isso, mas agora você também tem que lidar com fato de ter "enganado" as pessoas todo esse tempo. Não só há algo errado com você, você também é uma fraude. O problema é este: se é crítico que, o pensamento de que você não é bom tem que ser eliminado antes que você possa ser bom, esta tentativa em si confirma o ponto de vista de que há algo de errado com você, em primeiro lugar. Se você "compra" o pensamento, depois tenta livrar-se dele, uma vez que já o adquiriu, é tarde demais porque você já o "comprou". Em outras palavras, você apenas estaria tentando livrar-se do pensamento ou do sentimento porque você já está considerando-os literalmente como verdadeiros, de maneira que, o que você consegue ao final baseia-se em (e, em consequência, deve ter a qualidade de ) ser literalmente verdade. É por isto que o controle não pode funcionar.

Naturalmente, quando eu faço isto na terapia há muito mais alteração, mas isto apreende a essência da discussão. Por que no caso de tentar controlar os pensamentos e os sentimentos poderia ser um esforço destrutivo?. Se estamos usando uma regra para evitar certos estímulos verbais privados (por exemplo, os pensamentos) isto é perigoso por duas razões. Primeiro, como já tenho discutido, a própria regra deve especificar estes estímulos e, assim, a esquiva não pode ser completamente bem sucedida. Segundo, como eu disse ao cliente antes, mesmo que ela pudesse, a própria esquiva estabelece uma função controladora para os estímulos verbais evitados. Por exemplo, se evitamos o pensamento "Eu sou mau", isto dá a este pensamento uma função controladora que é, em si mesma, consistente com a classe "mau". Se uma pessoa deve mudar algo para ser boa, significa que exatamente agora a pessoa não é boa. Faz o pensamento funcionalmente mau e, em consequência, confirma o pensamento no sentido de evitá-lo. Como eu digo a meus clientes, é como jogar onde a regra é "Primeiro você perde, depois você joga". A única maneira como os pensamentos ou sentimentos "maus" podem perder este poder é se eles pararem de controlar um grande número de comportamentos. Lutar contra os pensamentos é um comportamento, assim como fazer o que eles "dizem", também o é. Meu propósito é enfraquecer a relação destrutiva comportamento-comportamento. Para que isto aconteça, a pessoa deve ter o primeiro comportamento e não o segundo.

Os sentimentos apresentam o mesmo dilema. A ansiedade, por exemplo, é uma resposta natural a uma situação na qual a punição é provável. A regra: "é fundamental não estar ansioso", sinaliza a punição para a ocorrência da reação à provável punição. Normalmente, isso não seria um problema porque a probabilidade de uma ansiedade considerável parece muito baixa. Um agorafóbico sabe, porém, que a ansiedade extrema é possível. Esse conhecimento nunca mudará. Assim, a aparente probabilidade de punição é muito alta e a regra, assim, produz exatamente aquilo contra o qual avisa.

É mais difícil explicar por que as atuais contingências não exercem um controle maior. Se seguir regras deste tipo é contra-produtivo, por que não paramos?. Para entender isto, é necessário uma aplicação do conceito de comportamento governado por regras. Parece haver três tipos básicos de regras. A primeira é o comportamento governado por regras sob o controle de uma aparente correspondência entre a regra e as contingências naturais (i. e., não arbitrárias) (Zettle & Hayes, 1982). Este tipo de regras é chamada TRACK (rastror, seguir rastro) e o comportamento que ele controla chama-se TRACKING (rastreamento), denotando seguir o caminho. Por exemplo, se dizemos para alguém: "A maneira de chegar a Greensboro é seguir 1-85", e se chegar a Greensboro fosse um estado de coisas reforçador, ele ou ela podem seguir a regra como um TRACK. Em certo sentido, este tipo de comportamento governado por regras simplesmente acrescenta outro estímulo discriminativo (apesar de ser um estímulo verbal) ao meio ambiente.

Um segundo tipo de regras é chamado PLIANCE (da palavra "compliance": submissão, condescendência). A própria regra é um "PLY" (aceder, manipular). PLIANCE é o comportamento governado por regras sob o controle de consequências aparentemente mediadas socialmente e arbitrárias para uma correspondência entre a regra e o comportamento relevante (Hayes et al., 1986a). O que é diferente quanto ao Acedimento (Pliance), quando comparado com Rastreamento (Tracking), não é a natureza das consequências (consequências sociais podem certamente ser naturais no sentido de não arbitrárias), mas que estas consequências são para outra unidade de comportamento. Elas não são liberadas para o comportamento em si mesmo, mas porque o comportamento é, também, uma instância de seguimento de regras. Assim, por exemplo, se eu digo para minha filha "Põe tua jaqueta agora mesmo" ela pode vestir sua jaqueta não por que estará aquecida, senão porque eu liberarei diferencialmente consequências por seguir ou não minhas instruções.

A terceira unidade é chamada AUGMENTING (Aumentando) e já descrevi brevemente. Essencialmente, um Aumentador é uma regra que funciona porque é um estímulo estabelecedor (Michael, 1982); isto é, um estímulo que muda nossa motivação em relação a uma determinada consequência.

Pode-se considerar que cada uma destas três unidades têm uma interseção (crossing) com outra dimensão, o grau em que as regras são tomadas literalmente. Lembremos que as regras são estímulos verbais e que os estímulos verbais têm seus efeitos baseados, em parte, em sua participação em classes de equivalência (ou em outras classes relacionais). Estas classes podem ser consideradas como relativamente compactas, em cujo caso cada estímulo pode essencialmente substituir outros na mesma classe em uma dada situação, ou relativamente não coesa (loose), em cujo caso os estímulos estão relacionados um ao outro, mas são também funcionalmente distintos em muitas situações. Os estímulos verbais são estímulos puramente arbitrários e assim, há pouco impedimento para a emergência de classes de equivalência realmente coesas (fairly tight). Por exemplo, suponha que eu tenha dito a um homem que atravessava a rua comigo: "Cuidado, um caminhão!". Considerando isto como se ele tivesse realmente visto um caminhão, contaria como vantagem para esse homem.

Nós temos histórias extensas da comunidade verbal por manter uma equivalência grosseira (rough) entre palavras e eventos. Somos encorajados a nos engajarmos em análises formais de situações e, então, a responder a estas análises. Assim, a comunidade verbal está constantemente estreitando a equivalência entre nossa conversa e o mundo. Nos é dito que nosso ponto de vista está certo ou correto, ou que uma determinada maneira de conversar é uma boa maneira de falar de eventos. Também temos extensas histórias de nos comportarmos consistentemente ou inconsistentemente com nossas regras estabelecidas. Quando pensamos algo, não é sempre óbvio que é mesmo um pensamento. Em certo sentido, a classe é tão coesa (tight) que é difícil ver que é uma classe. Por exemplo, se eu penso: "Este relacionamento interpessoal me machucará"- tenho que acabar com isso", posso agir como se fosse literalmente verdade. Isto é, posso agir como se eu estivesse realmente em uma situação na qual eu serei machucado. Posso mesmo não perceber que é só um pensamento que pode ou não corresponder com o mundo real.

A questão de por que seguimos regras destrutivas pode assim, estar relacionada com esta questão: sob que condições as regras produzem insensibilidade às contingências naturais? Rastreamentos literais poderiam produzir insensibilidade porque a regra é seguida da mesma maneira que os eventos ambientais reais seriam seguidos, e estes eventos podem, impor (entail) contingências reais. Se eu realmente necessito evitar ser machucado (Situação A), então sair da situação seria reforçado. Se penso que necessito fazer isso (Situação B), e respondo da mesma maneira, posso não ser reforçado, mas a história em relação à equivalência entre A e B pode protelar essa discriminação.

O ACEDIMENTO também poderia causar prejuízos, especialmente se o ACEDOR é relativamente literal. Neste caso, as contingências socialmente medidas são realmente acrescentadas à situação pelo seguimento da regra, de maneira que não seria surpreendente encontrar insensibilidade às contingências naturais. Há evidências de que o ACEDIMENTO produz insensibilidade às contingências naturais (Hayes et al., 1986a).

Os AUMENTADORES também podem criar notável insensibilidade, se são literais. Por exemplo, se nos é dito que todos deveriam ser capazes de fazer algo (por exemplo, controlar os sentimentos), o fracasso em fazê-lo pode ser muito mais punitivo que as próprias contingências naturais teriam estabelecido.

O exame das explicações que dei ao meu cliente pelo fracasso em abandonar a regra de controle (the control rule) revelará que tais explicações implicam diversos mecanismos possíveis nestes termos,. Inicialmente, o controle deliberado funciona em muitas outras situações, que tenderiam a fortalecer o seguimento desta regra em novas situações. É um RASTROR (track) testado e bem sucedido. Em segundo lugar, como uma questão de ACEDIMENTO (pliance), somos ensinados a tentar seguir a regra em situações sociais. Aprendemos que podemos e deveríamos controlar nossos comportamentos encobertos. Naturalmente, muitas vezes necessitamos apenas controlar a expressão aberta destes comportamentos, mas porque o ACEDOR (ply) tem uma qualidade literal, continuamos a aplicar a regra mesmo quando a expressão de comportamentos privados indesejáveis é suprimida. Em terceiro lugar, parece como se outras pessoas pudessem seguir a regra. Na medida em que a regra também é um RASTROR, isto tenderia a incrementar o seguimento de regras, desde que implica que as consequências naturais são como que estabelecidas na regra. Na medida em que a regra é um ACEDOR, isto pode fortalecer o seguimento de regras estabelecendo um padrão socialmente disponível em relação ao qual o desempenho pode ser avaliado (Hayes, Rosenfarb, Wulfert, Munt, Zettle & Korn, 1985; Hayes & Wolf, 1984; Rosenfarb & Hayes, 1984; Zettle & Hayes, 1983). A comunidade verbal pode dizer coisas como: "Sei que você pode se sair melhor. Olha o Jhonny. Ele não está chorando". Na medida em que a regra funciona como um AUMENTADOR (augmental), o sucesso aparente de outros pode fazer o nosso próprio fracasso suficientemente aversivo como para que façamos tudo para evitar a horrível possibilidade de que não possamos controlar nossa experiência privada. Finalmente, os efeitos a curto prazo de seguir a regra imita a contingência estabelecida na regra, o que tenderá a reforçar o RASTREAMENTO.

Com base nesta análise, podemos desfazer o dano através de diversos métodos: (1) ensinar diferentes regras que tenham efeitos mais benéficos. Isto é, essencialmente, o movimento realizado pela terapia cognitiva. É uma estratégia razoável, mas eu estou preocupado em relação ao fato de que ela se encaixa no contexto sócio-verbal de que tenho estado falando. Se temos que mudar nossos pensamentos para estar bem, o que isso diz de nós agora?

(2) reduzir formas destrutivas de ACEDIMENTO (pliance). Se podemos eliminar a possibilidade de ACEDIMENTO SOCIAL (social compliance)com regras literais, as contingências naturais podem exercer um controle maior (to take more of a hold). Isto é parte do que já venho descrevendo. Colocar um cliente em uma situação insustentável ou paradoxal em relação a regras dadas pelo terapeuta, por exemplo, deveria enfraquecer o ACEDIMENTO. Não há mais maneiras determinadas de fazer "a coisa certa".

(3) reduzir a literalidade das regras. O paradoxo é uma ajuda aqui, mas há técnicas adicionais. Note, por exemplo, que quando estou falando acerca dos pensamentos dos clientes, eu digo: "Você está tendo o pensamento de que..." de maneira a acentuar a diferença entre o pensamento como um pensamento e seu significado literal.

Evitar a armadilha da literalidade de maneira consistente porém, é difícil. Se nós apontamos logicamente o problema da literalidade, ainda estamos sustentando a literalidade porque nossa lógica real é baseada nela. O argumento racional, em consequência, não pode realizar esta tarefa por completo. Mesmo o paradoxo é baseado, até certo ponto, no significado literal das próprias palavras. Há outra maneira de enfraquecer a literalidade. Como isso pode ser feito é um tópico ao qual me voltarei agora.

 

META 3: DISTINGUIR AS PESSOAS DE SEU COMPORTAMENTO

Esta próxima sessão é uma das mais complicadas do ponto de vista behaviorista. Entre parênteses, também requererá uma maior tolerância ainda em relação à linguagem não técnica para que eu possa explicar esta questão de maneira adequada.

Permitimos que a palavra "VER" (seeing), represente as principais coisas que fazemos em relação ao mundo (sentir, movermos, etc). Para os organismos não verbais há somente o mundo e ver. Ver é inteiramente controlado pelas contingências diretas (de sobrevivência e reforçamento). Ver é simplesmente uma resposta a estas contingências não arbitrárias (Hayes, 1984).

Com o advento do comportamento verbal isto muda. De acordo com um ponto de vista Skinneriano algo mais, chamado auto-conhecimento e auto-consciência é acrescentado. Skinner descreveu isto da seguinte maneira: "Há uma diferença entre comportar-se e relatar que estamos nos comportando ou relatar as causas de nosso comportamento. Ao arranjar condições sob as quais uma pessoa descreve o mundo público ou privado no qual ela vive, a comunidade gera essa forma muito especial de comportamento chamada conhecimento. O auto-conhecimento é de origem social" (1974, p.30). Em outras palavras, a comunidade verbal estabelece contingências arbitrárias adicionais para um comportamento que é difícil de imaginar que poderia emergir de qualquer outra maneira: não só ver, mas o que poderíamos chamar de "VER VER"(seeing seeing) ou auto-conhecimento. Supostamente, isto acontece através de perguntas como "O que você fez ontem?". Emerge uma tendência generalizada a responder de maneira discriminada ao nosso próprio comportamento para sermos capazes de dar à comunidade verbal acesso às nossas experiências. Como Skinner diz: "É somente quando o mundo privado de uma pessoa se faz importante para os outros, que ele se faz importante para ela" (1974, p.31).

Mas parece que é mais do isso (Hayes, 1984). É também crítico para a comunidade verbal que este comportamento ocorra a partir de uma perspectiva dada e consistente. Isto é, nós (a comunidade verbal) não só devemos saber o que VEMOS VEMOS (sees seing), mas que VEMOS VEMOS do nosso ponto de vista. Desta maneira, a comunidade verbal cria um sentido de eu (self) que tem algumas propriedades muitos especiais.

O comportamento de VER VENDO (seeing seeing) de uma perspectiva determinada poderia emergir de diversas maneiras. Às crianças são ensinadas palavras diretas, demonstrativas (deictic) (por exemplo, "aqui" e "ali"), que se referem não a eventos mas à relação entre eventos e o ponto de vista da criança. De maneira similar, as crianças são ensinadas a distinguirem entre sua perspectiva e a de outras. As crianças pequenas, quando lhes é perguntado o que comem, podem relatar o que seu irmão comeu. Se lhes é perguntado o que uma boneca vê, elas relatarão o que elas próprias vêm e não o que a boneca vê. Gradualmente, porém, a comunidade verbal nos ensina a relatar de nosso ponto de vista. Finalmente, também é possível que a perspectiva surja pelo processo de eliminação ou por extensão metafórica. Somos ensinados a responder, geralmente, a perguntas do tipo: "O que você fez X?, onde X é uma ampla variedade de eventos tais como: comer, sentir, fazer, olhar, etc. Os próprios eventos mudam, constantemente. Só o foco da observação não muda. A invariante é que "você" é colocado nas afirmações quando os relatos devem ser feitos do ponto de vista de você.

Em um certo sentido estou argumentando que a comunidade verbal cria uma classe de comportamento "sem significado" ("content-less"), chamado "VER VENDO A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA" (seeing seeing fron perspective), e lhe dá o nome de "você". Tenho argumentado em todas as partes que este comportamento é a base da distinção matéria/espírito, que prevalece em nossa cultura (Hayes, 1984). Nós, é claro, usamos o termo "você" também de outras maneiras (por exemplo, "você como um organismo físico"), mas o sentido da palavra "você" que é de relevância para o distanciamento compreensivo é este sentido inicial.

O comportamento de, por exemplo, observar pensamento de uma determinada perspectiva é bem diferente do comportamento de seguir auto-regras. Ao ajudar a pessoa a distinguir entre ver vendo de uma perspectiva e as coisas vistas, pode mais provavelmente gerar uma regra sem que esta regra também seja seguida ou seja tomada literalmente. Esta é uma distinção difícil e dá um pouco de trabalho em terapia estabelecê-la solidamente. Entre parênteses (Parentheticaly), na próxima sessão do capítulo utilizarei o monólogo do terapeuta mais para dirigir-me ao leitor do que para imitar uma sessão terapêutica. Devido a uma questão de espaço não posso representar a grande quantidade de interações cliente-terapeuta que realmente acontece nestas sessões intermediárias no processo terapêutico.

TERAPEUTA: Como está indo tudo bem agora, é muito difícil, se não impossível, ficar fora da luta para livrar-se de pensamentos e sentimentos. "indesejáveis". Você é controlado demais por seus próprios pensamentos acerca do que necessita fazer. Segundo a maneira como operamos normalmente, confundimos o conteúdo de nosso próprio condicionamento com o comportamento de ver os resultados deste condicionamento. Devido a isso, quando temos um pensamento, é como se este pensamento fosse, agora, o que é real, não somente um pensamento, mas como o que o pensamento diz que é. Quando isso acontece, estamos no que eu chamo o "mundo em volta" (about world). Ficamos presos naquilo acerca do qual os pensamentos são - não no que eles são de fato. Em outras palavras, você não está somente notando o comportamento chamado pensamento, você está realmente na situação descrita pelo pensamento. Se você pensa que é mau, você é mau. Com frequência, você nem nota que isso é um pensamento. Correto?. De maneira que se você tem um pensamento como "Não posso suportar isso. Tenho que cair fora", não está claro que o que realmente aconteceu é que você experienciou você mesmo, pensado. Você NÃO experienciou o que o pensamento realmente disse. A forma do pensamento diz uma coisa, mas você realmente só experienciou que você pensou esse pensamento.

As nuances da "teoria da cópia" do próximo exemplo são devidas a sua utilização clínica. O leitor não deveria torná-la literalmente demais.

TERAPEUTA: Aqui tenho uma metáfora que pode ajudar. Imagine duas pessoas sentadas perante dois computadores idênticos. Dado uma programação particular, um determinado "input" produzirá um dado "output". O programa destes computadores são semelhantes ao que tem acontecido a você em sua vida. Dada uma certa situação, é provável que aconteça uma certa resposta. Digamos que digitamos algo no teclado e o "output" na tecla é "Envergonhe-se, você é uma pessoa má". Em um caso, imaginemos que a pessoa sentada em frente ao computador está consciente da distinção entre ela própria e o computador. Quando a saída de informação (readout) aparece na tela, pode ser interessante para esta pessoa, ou pode ser algo a considerar, ou algo a ser mostrado para os outros. Provavelmente, não precisa ser encoberta, seguida, não seguida, etc. A segunda pessoa, porém, é totalmente absorvida pela tela. Como uma pessoa nos filmes, ela se envolveu tanto que esqueceu que há uma distinção entre ela como observadora da tela e o que está na tela. Uma saída de informação (readout), como a que acabei de mencionar, seria muito mais inaceitável para este homem. Para ele seria, provavelmente, algo a ser negado, esquecido, mudado, etc. Em outras palavras, quando você se identifica como conteúdo de suas experiências privadas, você será automaticamente controlado por elas, pelo menos até o ponto em que você tente ver-se livre delas.

Aqui temos outra metáfora que ajudará a demonstrar este ponto. Imagine um tabuleiro de xadrez que funciona (goes out) indefinidamente em todas as direções. Neste tabuleiro temos uma série de peças de xadrez, de todas as cores. Para simplificar isto, concentremo-nos somente nas peças brancas e negras. Agora, no xadrez, espera-se que as peças se aliem com suas amigas para vencer suas inimigas. Assim, é como se as peças negras tentassem reunir-se e derrubar as peças brancas do tabuleiro e vice-versa.

Estas peças representam o conteúdo de sua vida: seus pensamentos, sentimentos, memórias, atitudes, predisposições comportamentais, sensações corporais, etc. E se você notar, elas realmente se reúnem. Por exemplo, as "positivas" podem aglomerar-se - você sabe, aquelas que dizem coisas como "Vou fazê-lo", etc. E as negativas também trabalham juntas. De maneira que você notará que os "maus" pensamentos estão associados a "más" lembranças, "maus" sentimentos, etc.

Agora, a maneira como usualmente tentamos trabalhar é considerando uma das equipes como "nossa equipe". É como se montássemos no lombo da rainha branca, e galopássemos para lutar contra as peças negras. Porém, há um grande problema com isso. Tão logo fazemos isto, grandes porções inteiras de nós mesmos são nossos próprios inimigos. Além disso, se é verdade que "se você não deseja tê-lo, você o tem, então à medida que você luta com as peças indesejáveis e tenta empurrá-las para fora do tabuleiro, elas aumentam, aumentam e aumentam de tamanho. E isso é, de fato, o que tem acontecido, não é? A ansiedade, por exemplo, tem ficado mais, e mais, e mais, o foco central de sua vida.

Dentro desta metáfora o triste é que quando você age como se somente parte de sua programação fosse aceitável, você deve, também, ir de quem você é até quem você não é. Para ser mais preciso ainda, você deve agir como se você não fosse quem você mesmo experiência que é (as if you are no longer who you experience yourself to be). Você deve esquecer que, na última metáfora, você não é o computador. Dentro desta metáfora, você pode ver quem "você" é?

CLIENTE: Não sei. Sempre pensei que eu era as peças. Quem mais eu poderia ser?

TERAPEUTA: Bem, pense acerca disso.

CLIENTE: O tabuleiro?

TERAPEUTA: Sim. Você vê? .Você é o tabuleiro. Você é o contexto no qual todas coisas podem ser vistas. Se houvesse um pensamento, e ninguém para vê-lo, seria como se ele não estivesse lá, em absoluto. Agora você nota que um tabuleiro, enquanto está sendo um tabuleiro, somente pode fazer uma de duas coisas: pode segurar o que é colocando sobre ele ou pode mover tudo, como quando você recolhe (apanha) o tabuleiro e o move no meio de um jogo. Note, também, que segurar as peças não requer esforço. Se o tabuleiro quisesse mover as peças continuamente, uma por vez, porém, ele teria que ir do nível de tabuleiro ao nível de peça. De maneira que se você fica no meio das peças a fim de move-las, você tem que esquecer que você é realmente o tabuleiro. E uma vez que você está no nível de peça, você tem que lutar, porque a esse nível outras peças parecem ameaçar sua própria sobrevivência. Isto é porque você não pode, logicamente, forçar você mesmo a não lutar com suas emoções. É uma causa perdida. O que você pode fazer é distinguir, à medida que você experiência, você mesmo dos eventos que está experienciando. Isto é, você pode ter certeza de que, de qualquer maneira você realmente está no nível de tabuleiro. A partir desse nível é possível observar a guerra entre seus próprios pedaços sem ser fisgado por eles - isto é, sem ter que tomá-los literalmente, ou sem ter que mudá-los antes que você possa controlar sua vida. É somente percebendo que você não tem controle sobre os pedaços e você não precisa ter controle sobre eles, que você pode ter controle sobre sua vida.

Esta metáfora prévia pode parecer estranha, especialmente para um behaviorista radical. Parece como se eu estivesse encorajando um tipo de eu desencarnado: uma distinção entre a "pessoa real;" e o comportamento. Mas a comunidade verbal, que estabeleceu este tipo de eu para começar com ele (which established this kind of self to begin with), não estava tentando estabelecer uma verdade científica literal. Há muitas vantagens em ajudar pessoas a manter-se em contato com elas mesmas, neste sentido. Note que eu falei de "quem você experiencia que você é" (who you experience your self to be). Meu argumento é que uma pessoa pode experimentar este sentido de "eu" somente devido `a comunidade verbal. O "você" que experimentamos como sendo nós mesmos é, primeiramente, "você em perspectiva", porque é isso que a comunidade verbal está interessada em estabelecer como "você". A próxima seção é um exercício extraído, em grande parte, de um livro de Assagioli (1971).

TERAPEUTA: O.K. Quero fazer um pequeno exercício para ajudar você a ficar em contato com sua experiência real dos eventos de que estivemos falando. Lembre-se, não quero que você acredite no que tenho estado dizendo aqui. Não é uma questão de crença. Não quero acrescentar mais pedaços aos que você já tem. O que quero que você faça é conferir e ver se, em sua experiência atual, as distinções que estiver fazendo não são evidentes. Quando você faz isso não será uma questão de palavras - você terá feito um contato com os eventos diretamente. É como se você não tivesse realmente que acreditar em cadeiras. Você tem conhecimento delas a partir de sua experiência direta e isso é mais que suficiente. É exatamente como isso.

Quero que você comece fechando os olhos. Note o que o seu corpo está fazendo exatamente agora... Note se você está tendo sentimentos ou emoções... Veja se você está pensando em alguma coisa.

Agora eu quero que você note que quando eu fiz estas perguntas você estava aí notando as reações. Isto é, veja se não é verdade que por trás do conteúdo havia um sentido de você olhando o conteúdo. Eu chamarei isso de "o observador você". Agora, do ponto de vista do observador você, quero que você examine diversas áreas.

Comecemos com suas sensações corporais. Quero que você note todas as coisas que seu corpo está fazendo exatamente agora. Agora pense em todas as mudanças que seu corpo tem tido através de sua vida. Uma vez foi muito pequeno, mas agora está crescido. Algumas vezes ele está doente, e outras vezes está bem. Algumas vezes, seu corpo é forte, outras é fraco. E agora quero que você note que seu corpo mudou, que o sentido de você sendo você - esse observador você - tem permanecido o mesmo. Lembre quando você tinha, digamos, 10 ou 11 anos. Agora permita-me lhe fazer uma pergunta. Você se lembra de ser você, então?. Você se lembra de olhar para o mundo lá fora?. Agora permita-me fazer-lhe outra pergunta. Quem está aqui, agora, não é o mesmo você que estava ali, então?. Não responda de maneira lógica. Não estou perguntando acerca de suas crenças. Estou perguntando: "É essa experiência de observar sua vida que está (acontecendo) aqui, agora, o mesmo que era lá, então?. Não é verdade que você tem sido você sua vida inteira? Agora, se você experimentou seu corpo mudando rapidamente e mesmo assim o você que você chama você (the you that you really call you) tem permanecido o mesmo, isto deve significar que enquanto você tem um corpo, você não experimenta você mesmo como sendo o seu corpo. Por favor não acredite nisto. Não estou dando a você mais dogmas em que acreditar. Somente estou pedindo-lhe que reconheça sua experiência. Pense nestas questões. Se você perdesse uma mão, você ainda não seria você?. Se você sofresse uma operação cirúrgica e um órgão fosse removido, você ainda não seria você?. De fato, enquanto você estiver aqui para ver suas próprias experiências, você será você, não é?. Passe, então, uns poucos momentos olhando seu corpo, depois note quem está olhando.

O.K., vamos agora para uma outra área. Olhemos para suas emoções. Pense em todas as emoções que você experimentou em sua vida. Algumas vezes você está feliz, outras triste. Algumas vezes você está bravo, outras tranquilo. Mas, note que você ainda está "vendo" suas emoções. De maneira que, se suas emoções estão mudando rapidamente e, ainda, o você que você chama você - este observador você (observer you) - permanece o mesmo, deve ser que, enquanto você tem emoções, você não deve experienciar você mesmo como sendo suas emoções. Novamente, não acredite nisto. Não é uma questão de crença. Somente preste atenção em suas emoções justamente agora, e depois perceba quem as está notando. Gaste uns poucos instantes somente notando isto.

Agora, vamos para outra área: seus pensamentos. Esta é uma área difícil porque o próprio sistema que nos permite saber que sabemos é o sistema que estamos observando quando estamos olhando para nossa própria linguagem privada. Pense em todos os pensamentos que você tem em um dia. Note como eles também estão constantemente mudando. De fato, mesmo enquanto falo, seus pensamentos estão mudando, e mudando, e mudando novamente. Assim que você acabou de ter um pensamento acerca do que está experienciando, você já está pronto para mudar para algo mais. Note como seus pensamentos tem mudado ao longo dos anos. Quando você era pequeno, costumava pensar em coisas que não pensa mais. E você tinha áreas de ignorância que agora não tem mais. À medida que você vive sua vida isto continua acontecendo e acontecendo novamente. Agora note mais uma vez que, enquanto seus pensamentos estão constantemente mudado o sentido de ser você tem se mantido o mesmo. Isto deve significar que enquanto você tem pensamentos, você não experimenta você mesmo como se você fosse seus pensamentos. Então, continue notando seus pensamentos por um momento. Agora perceba quem os está notando.

Este exercício pode ser ampliado para incluir qualquer comportamento que o terapeuta queira distinguir. Eu começo tipicamente com papéis, por exemplo, e comumente incluirei lembranças e outros comportamentos. Também gasto muito mais tempo em cada sessão do que a versão abreviada, aqui, sugere.

Em que sentido é possível que o sentido de "você" socialmente criado possa ser independente de todos estes comportamentos?. Isto somente é possível porque o comportamento de VER VENDO a partir de uma perspectiva é, em si mesmo, conteúdo livre. Isto é, é um comportamento que não pode, em si mesmo, ser considerado como uma coisa pela pessoa que se comporta dessa maneira (HAYES, 1984). Uma pessoa não nota este comportamento antes que o comportamento tenha mudado fundamentalmente. Se os organismos conscientes fossem ver (a partir de) sua própria perspectiva, de que perspectiva poderia ser vista?. Assim, o sentido do eu estabelecido pela comunidade verbal pode ser observado a partir de, mas não ser simplesmemte observado - ou, pelo menos, assim que é simplesmente observado, o comportamento sendo examinado não está mais acontecendo no mesmo lugar. O "exercício do observador", citado acima, simplesmente permite que os clientes tenham um rápido relance daquilo que as pessoas conhecem de qualquer maneira muito bem, que o sentido de ser "você" permanece o mesmo através da vida. Tem que permanecer porque tudo o que ele é, é o sentido de ver (viewing) a partir de uma perspectiva. Se isso devesse mudar, nós não mais seríamos aquele "você".

Há algo que realmente acalma em relação a este exercício. Eu tenho tido muitos clientes que ficaram muito diferentes depois desta sessão. Para dar uma idéia de como eu uso este exercício, relatarei como o concluo.

TERAPEUTA: Agora então, note que, como uma questão experimental (além de qualquer outra coisa que você acredite), você sabe que você não é seus sentimentos, seus papéis, suas emoções ou seu corpo. Você é o contexto em que todas as coisas podem ser vistas como coisas. Sem você elas não existiriam. Elas estão em sua vida, mas elas não são o que você é. De maneira que todas estas coisas com as quais você tem estado lutando, todas estas coisas que você tem estado tentando mudar NÃO SÃO VOCÊ HOJE. Quero que note que você é suficientemente grande para que todas estas coisas estejam ali. Você não tem que mudar nada para progredir - para tornar seu dinheiro aceitável. Você é aceitável do jeito que você é.

A questão é que somente quando é feita uma distinção entre este sentido do eu e as coisas em nossa vida, é possível fazer qualquer outra coisa com estas coisas, além de lutar com elas, seguí-las, tentar livrar-se delas, etc. Nós temos muitas regras socialmente estabelecidas acerca do auto-valor. As pessoas querem ser aceitáveis para si mesmas e para os outros. Infelizmente, devido à avaliação verbal, ao nível de conteúdo, ninguém é realmente aceitável. Algumas vezes, eu peço a meus clientes para que nomeiem uma coisa no universo físico que eles possam considerar perfeita. Usualmente, não conseguem. Depois, eu pergunto: "Por que, então você deveria ser uma exceção?".

Se o "você" que consideramos como sendo nós mesmos é este observador "você", estas regras de auto-valor são manejadas muito facilmente. Desde que o observador "você" é, em certo sentido, "conteúdo livre", não há nada em relação a "você" que seja inaceitável. Somente as coisas podem ser avaliadas e, ao nível mais profundo, não se pode ter a experiência de nós mesmos no sentido de "você como perspectiva" sermos uma coisa.

 

META 4 : PERMITIR QUE A LUTA PARE

Há muitas maneiras pelas quais os clientes podem ser fisgados para entrarem em uma luta com seus pensamentos e sentimentos. Neste ponto da terapia, de maneira típica, aponto diversas maneiras pelas quais podemos ser "pegos" pelo sentido literal de nossos pensamentos e descrições de experiências. Tratarei brevemente algumas das mesmas, mas o leitor deveria saber que, obviamente, estou pulando um pouco (skipping quite a bit) em todas estas seções. Como provavelmente dá para notar, um enfoque contextual difere de muitas maneiras básicas não só da Terapia Comportamental ou da Terapia Cognitiva, mas também de nossa cultura dominante. Por essas razões, não posso descrever o enfoque por inteiro, mesmo dentro dos limites de um capítulo comprido.

Uma maneira pela qual as pessoas podem acabar entrando novamente em uma luta é confundindo a avaliação com as coisas avaliadas. Quando dizemos: "Essa é uma xícara", e quando a afirmação é controlada pela própria xícara, esta afirmação é um TATO. O tato é um caso em que a equivalência entre os estímulos verbais e o mundo pode ser muito estreita, se todos os rastrores se baseiam em tatos, a literalidade não seria problema, porque a regra estaria presente somente quando os eventos de que a palavra tateia também estivessem presentes. Infelizmente, muitas outras descrições aparentes não são realmente tatos mas, não obstante, podem ser rasteados (ZETTLE & HAYES, 1982). Por exemplo, uma pessoa poderia dizer: "Essa é uma boa xícara". A palavra boa não é, com toda probabilidade, um tato. Não há nenhum estímulo "BOM" presente. Realmente, estamos reagindo a coisas, tais como gostarmos ou não da xícara. Em vez de descrever nossas reações à xícara, porém, parecemos estar descrevendo a própria xícara: "Essa é uma boa xícara".

Há duas coisas, em relação a isto, que são destrutivas. Primeiro, é provável que rastreemos esta regra literalmente, mesmo quando não é literalmente verdade: não é um tato. Segundo, não podemos permitir que os tatos mudem muito rapidamente. Se eu digo de uma xícara: "Esse é um carro de corrida", a comunidade verbal não pode permitir-se reforçar esse tipo de afirmação. Fazer isso resultaria no caos. Em outras palavras, os termos parecidos a tatos devem ser muito resistentes à mudança. Se é permitido que "BOM" seja tratado como um tato, também não se pode mudar. Assim, nossas avaliações devem ser afirmadas (held on to), defendidas, seguidas, acertadas, etc. Podemos ver a terrível ironia disto quando os clientes tem sido fisgados por pensamentos tais como: "sou mau". Os pseudo-tatos não podem mudar facilmente, de maneira que, uma vez que pensamos que somos maus devemos continuar sendo maus. Se uma pessoa focaliza isto como uma questão de ser como nós somos e, também, de ter o pensamento de que somos maus, então não é criada tal rigidez artificial. A pessoa pode, algumas vezes, pensar "sou mau" e, algumas vezes, não. À medida que os pensamentos vem e vão, assim o fazem os termos "mau" e "bom" desde que eles perderam o seu status literal.

Na área da avaliação, eu encorajo os clientes a nomear as avaliações. Por exemplo, em vez de dizer: "meu trabalho é horrível, eu tenho que pedir demissão", o cliente aprende a dizer: "minha avaliação do meu trabalho é que ele é horrível, e eu estou pensando que tenho que pedir demissão". Depois de diversas semanas, esta prática incômoda pode ser reduzida, mas se em qualquer momento, parecer que os clientes estão sendo puxados novamente a uma luta, esta convenção pode ser re-estabelecida durante um curto período de tempo. Pode fazer uma diferença notável no controle exercido por este tipo de conversação por parte do cliente.

As avaliações também podem apresentar um problema quando os clientes confundem o desejo de experimentar determinados sentimentos (isto é, deixar o controle de lado) com a avaliação de que a experiência é desejável. Uma metáfora que eu uso é a de uma "festa de casa aberta" á qual todos na vizinhança são convidados. Infelizmente, o beberrão que dorme atrás do supermercado "dá um show". Ainda é possível DAR AS BOAS-VINDAS a ele sem ter que gostar do fato dele ter "dado um show". Se o anfitrião não gosta disso, esse próprio desgosto é somente outro beberrão na porta, ou o que um de meus estudantes chamou de "amigo íntimo do beberrão". Assim, a avaliação não é o mesmo que boa vontade. O cliente não necessita gostar de sua ansiedade - a questão é a boa vontade para ter a ansiedade quando ela aparece.

Outra maneira pela qual os clientes encorajam a luta é pelo uso da linguagem que implica que a luta é necessária. O exemplo mais claro disto é o uso da palavra "MAS". "Mas" é tipicamente usada para denotar algum tipo de incompatibilidade entre um evento e outro. A incompatibilidade, porém, surge a partir da convenção social acerca da consistência e da compatibilidade. Por exemplo, se um cliente diz "quero ir à alameda, mas estou com medo", isso sugere que o medo é incompatível com a aproximação. Isto não é nada mais que dar uma razão emocional como causa do comportamento. Assim, "MAS" quase sempre dá sustentação ao contexto de dar razões. Na terapia, eu encorajo os clientes a mudarem todas as palavras "MAS" para a palavra "E". Em que quase toda situação a palavra "E" ajusta-se melhor e é mais verdadeira já que descreve a experiência do cliente de maneira mais estreita. Além do mais, devido a que o contexto de controle é baseado no contexto de dar razões, enfraquecer este último contexto enfraquece notavelmente esforços desnecessários para mudar eventos antes que sejam possíveis mudanças na vida. Um cliente que diz: "Quero ir à alameda, e estou com medo" está, exatamente, descrevendo dois eventos emocionais. Nada deve mudar antes de que uma ação seja realizada. A próxima pergunta ao cliente é: "Você quer ir à alameda E sente medo?

 

META 5: ASSUMINDO UM COMPROMISSO DE AÇÃO

Depois do trabalho acima, o cliente está, agora, mais preparado para empreender (to take) uma ação diretiva para mudar a qualidade de sua vida. Desde que as razões são, agora, somente comportamento verbal e não causas literais, a pessoa pode fazer promessas e saber que não haverá excusas para um fracasso ao concretizar um projeto (to follow through).

É neste ponto que as técnicas do behaviorismo tradicional tornam-se importantes. Elas estão, entretanto, sempre situadas no contexto de um enfoque contextual à experiência privada. Algumas vezes, isto requer alguma reorganização conceitual, desde que muitas destas técnicas originariamente emergiram dentro do contexto do controle, e o controle é o que limita os horizontes dos clientes, em primeira lugar. Eu não conheço nenhuma técnica corportamental que não possa ser relacionada dentro de um enfoque contextual, com exceção de algumas formas de Terapia Cognitiva.

Por exemplo, quando estou trabalhando com agorafóbicos, geralmente começamos a realizar exercícios de aproximação deliberada, aproximadamente neste ponto (cerca de 6 sessões terapêuticas). O trabalho de exposição, porém, não se destina a reduzir a ansiedade. Em vez disso, a exposição dá às pessoas uma oportunidade de treinar a experiência da ansiedade sem, ao mesmo tempo, lutar com a ansiedade. É, também, uma oportunidade para fazer e manter compromissos. A pergunta que eu formulo aos clientes antes de tentarem a exposição deliberada é: "Fora da situação em que há uma distinção entre você e as coisas que você experiencia, quer você experienciar seus pensamentos e sentimentos sem defesa, negação, encobrimento, esquiva, tentativa de mudança, ou qualquer outro tipo de luta - e fazer o que realmente funciona para você nesta situação, mantendo seu compromisso?". Se a resposta é "não", voltaremos à parte inicial da terapia e descubrimos qual é o problema. Se a resposta é "sim", é tempo de se expor. Durante a exposição trabalho continuamente com o cliente para reconhecer a diferenciação entre ele com uma pessoa e os comportamentos privados que está experienciando. Encorajo o cliente a sentir qualquer que seja seu sentimento, incluindo a ansiedade, e o encorajo a não lutar com ela. O compromisso de experimentar nossos próprios sentimentos deve ser realmente forte. Eu utilizo o exemplo de uma criança fazendo birra para obter doces. Se a criança sabe que o pai tem um limite e que se renderá se chegar ao mesmo - talvez 5 minutos - adivinhe quanto durará a birra? Da mesma maneira, se um cliente deseja ficar ansioso, é importante que não deixe que seja uma meia medida. Como a criança, as emoções de um cliente "conhecerão" os limites e provavelmente os excederão. Não há como auto-enganar-se.

A exposição imaginária tal como dessensibilização é, agora, uma oportunidade tanto para sentir ansiedade como para aprender a deixar de lutar com a mesma. Como digo a meus clientes, "somente mantenha seus olhos abertos, seus pés no chão e suas mãos abertas". Quero dizer com isso que o cliente deveria ver a emoção ou o pensamento, mas não fugir dele e nem lutar com o mesmo. A metáfora sugerida originalmente por um cliente, que algumas vezes utilizo é esta: "Imagine que você está em um cabo-de-guerra com um monstro enorme, que parece tentar empurrar você numa fossa. Você luta mais e mais, mas quanto mais você luta, mais forte o monstro se faz. Em vez de lutar, você pode fazer algo mais eficaz: soltar a corda. Somente se você entrar na batalha (por exemplo a ansiedade), o monstro terá o controle". Algumas vezes, uso deliberadamente exercícios de boa vontade para treinar o "soltar a corda". Por exemplo, algumas vezes eu peço ao cliente para sentar-se a uma distância de aproximadamente 30cm (um pé) de mim e lhe peço para olhar-me nos olhos durante dois minutos sem falar ou rir. A medida que faço isso, encorajo o cliente a experimentar, mas não a "comprar" nenhum sentimento, pensamento, etc; se tomado literalmente, interferiria com o exercício (incluindo pensamentos "úteis" como "Eu farei isto corretamente").

Algumas formas de Terapia Cognitiva, segundo é ensinado, também podem ser utilizadas até certo ponto. A Terapia Racional Emotiva (RET) é muito difícil de ser integrada dentro desta perspectiva porque ela chega muito perto de dizer que você não deveria pensar certos pensamentos. Isto parece provavelmente aumentar o controle patológico de regras socialmente estabelecidas, apesar de que estas próprias regras são, agora, aquelas estabelecidas pela própria terapia (ver Zettle & Hayes, 1980; 1982). A RET procura mudar os pensamentos. O distanciamento compreensivo procura mudar o contexto dentro do qual acontecem os pensamentos.

O enfoque de BECK (por exemplo, Beck & Emery, 1983) é mais compatível, ao menos em alguns de seus elementos. Certamente, há muito a ser dito para ensinar clientes a formular regras de maneira testável, e para testar a exatidão das regras. Essencialmente, isto pode ser considerado como um treino de rastreamento (Zettle & Hayes, 1982). BECK também tem o seu "distanciamento" apesar de que não é tão compreensivo como o presente enfoque.

O distanciamento compreensivo compartilha muitos atributos com diversas terapias experienciais. Frequentemente, utilizo os exercícios da Gestalt, por exemplo, porque eles levam bem naturalmente a algum senso de distância entre o conteúdo das experiências e a pessoa que se engajou no processo de experienciá-las. Essencialmente, os exercícios da Gestalt são maneiras de fazer exposição imaginárias a eventos privados com os quais os clientes estão lutando, evitando ou tentando mudar. Por exemplo, frequentemente eu tenho clientes que colocam suas emoções à sua frente e as descrevem fisicamente.

Ocasionalmente utilizo também, algumas técnicas psicoanalíticas. Uma forma de exercício de livre associação que eu gosto é aquela que um de meus clientes criou. Ela a chamou de exercício dos "soldados no desfile". Ela imaginou que seus pensamentos eram soldados marchando, carregando sinais com os pensamentos sobre eles. O jogo consistia em olhar o desfile como de um palanque, e ver quão longe ela poderia ir sem parar o desfile. Invariavelmente, os clientes descobrem que o desfile parará quando um dos pensamentos for tomado literalmente. Nesse momento, o cliente perde o que FREUD chamou de atitude apropriada de "auto-observação quieta, não reflexiva". Em vez que olhar PARA o pensamento, o cliente está, agora, olhando A PARTIR do pensamento, e o desfile termina. Este é um exercício que pode facilmente ser feito em casa.

Outro exercício de associação, que pode ser feito nas sessões, começa selecionando um evento privado com o qual o paciente esteja lutando. Com os olhos fechados, o cliente põe-se em estreito contato como o mesmo. O terapeuta então, pede ao cliente para nomear uma sensação corporal que pareça associado com o evento. Quando um sintoma específico isolado (single) é nomeado, o terapeuta encoraja o cliente a ver se é possível sentir somente esse sintoma corporal sem defesa, negação ou luta - isto é sem a intenção de controlá-lo. Desta maneira, o terapeuta conduz o cliente através de diversas sensações corporais, depois, diversas emoções, diversos pensamentos, diversas predisposições comportamentais e, finalmente, diversas lembranças. Em cada caso, o terapeuta ajuda o cliente a experienciar completamente o ítem associado. Pode ser um poderoso exercício. Há muito mais metáforas e exercícios que se ajustam bem dentro do enfoque contextual, mas a explicação destes terá que esperar outro fórum ainda mais extenso.

 

DIFERENCIANDO A TÉCNICA DA TEORIA

O presente livro pergunta: "Qual é a relação entre Terapia Comportamental e Terapia Cognitiva?" Do ponto de vista do behaviorismo radical, uma terapia eficaz é a behaviorista. Por isto, eu não quero dizer que somente técnicas chamadas "Comportamentais" funcionarão. Quero dizer, se nós tentamos dar uma explicação compreensiva do comportamento humano, e se chamamos a todos os princípios que explicam o comportamento de "princípios comportamentais", e se a terapia muda o comportamento, então deve ter acontecido devido a tais princípios comportamentais. Isto não significa que conheçamos corretamente todos os princípios necessários para explicar a ação humana. Não os conhecemos. Nossa tarefa é descobri-los. Algumas vezes, os behavioristas agem como se todo o comportamento devesse ser explicado através de princípios comportamentais conhecidos, mas isto não é realmente em absoluto, inerente à posição. É uma aberração arrogante da mesma.

Na minha opinião, a Terapia Comportamental não é um conjunto de técnicas. Mas sim, é um enfoque à terapia que é organizado, racionalizado e avaliado em termos de filosofia, conceitos e metodologia comportamental. Assim, a "Psicodinâmica", a "Gestalt" ou "qualquer outro conjunto de técnicas" pode ser parte da terapia do comportamento quando (mas somente quando) isto acontece. De fato, muitas técnicas chamadas técnicas terapêuticas comportamentais, não são realmente behavioristas em um sentido comportamental radical do termo.

Dentro do behaviorismo metodológico contemporâneo, somente dois usos sensatos do termo "terapia comportamental" parecem possíveis. Poderíamos reivindicar que todas as técnicas empiricamente estabelecidas são comportamentais. Essencialmente, então, a Terapia Comportamental faz-se uma Psicologia Clínica empírica. Inversamente, poderíamos ver as técnicas que obviamente tratam o comportamento aberto como "comportamental". Neste caso, porém, a terapia do comportamento será, para sempre um mero subconjunto de enfoques terapêuticos, e ecleticismo teórico será confundido inextrincavelmente com o ecleticismo técnico.

 

O PAPEL DO TERAPEUTA

Dentro de uma perspectiva contextual, o terapeuta deve ser capaz de discernir e reagir a fontes de controle sobre o comportamento, que estão quase onipresentes em nossa cultura. Os contextos de literalidade, de dar razões e de controle são os contextos dominantes dentro dos quais todos funcionamos. Desde que a meta do distanciamento compreensivo é mudar estes contextos, significa que não podemos apoiarmo-nos na forma do comportamento, mas devemos discernir sua função.

Os behavioristas têm, particularmente, a tendência a distinguir entre forma e função de maneira que parece que eles estariam extremamente bem preparados para esta terefa. Em geral, isto parece ser verdade, mas não sempre. O trabalho bem-sucedido dentro desta perspectiva parece requerer o seguinte:

 

(1) Sensibilidade ao controle destrutivo por regras. Os clientes podem aprender a funcionar dentro de uma perspectiva contextual, mas não é fácil. Os terapeutas precisam estar atentos a (to be on the look out for such) afirmações como "Finalmente, estou aprendendo a ignorar esta ansiedade". Tal afirmação profundamente inócua é perigosa porque usualmente significa que a pessoa pensa que a ansiedade deve ser ignorada para que seus efeitos se enfraqueçam. Isto inicia novamente uma luta para reduzir ou eliminar a ansiedade. De maneira similar, os clientes podem dizer, em resposta a uma pergunta acerca de como as coisas vão: "sinto-me extremamente bem". Isto é algo preocupante porque implica que a medida do sucesso ou fracasso deveriam ser os sentimentos. Há um passo curto de "Quero sentir-me bem" para "Não quero sentir-me mal". Não há nada errado com estes desejos em si, mas se eles são tomados literalmente, a luta recomeçará. Frequentemente, advirto os clientes que se a ansiedade cai depois que a "escala de controle" caiu (como quase sempre faz), este é o momento traiçoeiro. Vendo que a ansiedade caiu, os clientes frequentemente agem como se agora eles soubessem como controlar sua ansiedade. Eles sentem-se gratos porque ela finalmente foi embora. Assim que os clientes começam a tomar esta auto-conversação literalmente, a escala de controle move-se para cima novamente. Então, quando a ansiedade aumenta mais uma vez, como com certeza, eventualmente o faz, em vez de simplesmente permitir que ela chegue a um nível natural apropriado ao momento, a luta começa novamente devido à atitude que diz: "Pensei que a tinha vencido, mas não o fiz". Os terapeutas devem, em consequência, ser muito sensíveis aos estágios iniciais deste tipo de luta e aos múltiplos caminhos que podem elevá-la.

 

(2) Um enfoque rápido e flexível (mas não dominante). Os terapeutas também devem ser capazes de reagir rapidamente às suas observações. O terapeuta deve ser capaz de expor de maneira diferente as questões básicas, de forma a se adaptarem `a situação presente, sem simultaneamente dominar o cliente. O terapeuta deve permitir que o cliente descubra algumas destas coisas, mas o terapeuta também deve ser flexível e criativo ao fomentar essa descoberta. Os bons terapeutas estão prontos a adaptar seus pontos a uma forma que não é dominante e, frequentemente, não literal, quando o cliente o requer. O uso criativo da metáfora e da alegoria, por exemplo, é extensivo neste enfoque. Isto tende a permitir que os clientes descubram pontos sem uma racionalidade linear. Muito deste capítulo pode parecer ter indicado que se pode contar às pessoas somente umas poucas histórias e esperar que criem a mudança. Na realidade, a própria interação é crítica. O material didático simplesmente estabelece as bases lógicas para fazer o trabalho realmente importante: discriminar e reagir ao "sistema" do cliente, momento a momento. Na sessão regular, na parte inicial do processo terapêutico (mas após as primeiras cinco ou seis sessões que são relativamente didáticas), posso ter que reorientar um cliente, apontando as lutas implícitas que ele está travando, talvez quatro ou cinco vezes e cada vez pode tomar uns poucos minutos para lidar com isso. Assim, a avaliação rápida e um enfoque flexível é essencial para o sucesso nesta terapia.

 

(3) Colocar as técnicas em um contexto apropriado. Uma área difícil neste enfoque é a necessidade de adequar técnicas e exercícios a um contexto geral que não está bem estabelecido dentro da cultura. Eu verifico que terapeutas inexperientes frequentemente deslizam para o uso de técnicas, em nome de seus efeitos, que não se ajustam dentro deste enfoque. Por exemplo, eles frequentemente propõem o treino em relaxamento como uma maneira de ajudar o cliente a relaxar, em vez de usá-la como uma prática para permitir abandonar a luta com a ansiedade. De maneira similar, terapeutas inexperientes dirão aos clientes que ser mais assertivos fará com que eles se sintam melhor quando, de fato, não é esse o propósito (nem é o efeito necessário) do treinamento dentro deste contexto.

 

(4) Praticar o que pregamos. Esta última característica do terapeuta é, talvez, a mais difícil. Porque um enfoque contextual choca-se com o ponto de vista da cultura dominante a maioria dos terapeutas passam momentos difíceis no início, praticando o que pregam. Em geral, um terapeuta que pretende praticar a partir deste contexto não deve fazê-lo como uma técnica ou como um golpe a ser desferido em outrem, mas como um contexto para o comportamento tanto do terapeuta como do cliente.

Os problemas citados acima (sensibilidade, intervenção flexível, e o uso criativo de técnicas específicas) provavelmente todas fluem a partir deste ponto. Podemos ser mais sensíveis às armadilhas que os outros colocam somente quando percebemos algumas das que nós mesmos colocamos. Assim, os terapeutas podem apontar a relevância deste contexto para eventos específicos somente se eles examinarem tal relevância frequentemente e em detalhe - como será o caso se eles o estiverem aplicando a suas próprias vidas. Finalmente, os terapeutas utilizarão técnicas de forma coerente somente quando o enfoque geral estiver completamente integrado com suas próprias vidas. Um enfoque contextual não é uma técnica.

 

ERROS CLÍNICOS COMUNS

Até certo ponto já lidei com esta questão acima, mas ali eu estava concentrado mais nos erros cometidos dentro deste enfoque. Se eu examino os erros a partir deste enfoque, a lista se expande. De longe, o erro mais facilmente cometido é tomar o conteúdo, em vez do contexto, como a questão-alvo. Isto é, podemos nos sentir tentados a tomar o relato do cliente, do que incomoda a ele ou a ela, como uma avaliação exata do que necessita ser mudado, quando de fato este evento é problemático somente dentro de um contexto determinado. Isto é especialmente lamentável quando leva o cliente a ter um problema contínuo e uma melhora superficial. Por exemplo, muitos dos assim chamados procedimentos de manejo da ansiedade parecem levar somente a melhoras limitadas. Acredito que isto ocorre porque eles procuram mudar apenas a forma do comportamento, não alterando o comportamento em um sentido funcional completo. Outros enfoques algumas vezes funcionam, mas deixam intacto o sistema que está , em primeiro lugar, criando o problema. Por exemplo, instruções paradoxais (Weeks & L'Abate, 1982) podem dar "curto circuito" na tentativa de controlar a experiência privada, mas deixa no seu lugar o suporte sócio-verbal para que este tipo de controle emerja mais uma vez.

Um segundo tipo de erro pode acontecer quando terapeutas agem como se os problemas que os clientes estão enfrentando indicassem que, de alguma maneira, eles estão quebrados ou deficientes ou que eles necessitam, de alguma forma básica, que lhes ensinem como comportar-se. Comumente, isto releva por mesmo em uma tendência a dar conselho desnecessariamente ou de instruir as pessoas acerca da FORMA que seu comportamento deveria tomar. Quando nós, terapeutas, tomamos este papel paternalista em relação aos clientes, algumas vezes incapacitamos suas habilidades para experienciar as contingências de maneira direta e verificar que eles têm recursos para aprender e crescer. Em relação à toda conversação diretiva que alguns leitores podem ter discernido neste capítulo, notemos que muito pouco da mesma diz ao cliente que forma de comportamento adotar. A confrontação parece-se mais com apresentar um dilema ao cliente, que uma prescrição.

Eu desconfio de conselhos e instruções. Frequentemente, o que nós dizemos aos clientes são coisas que eles já ouviram. Se o problema é falta de instruções adequadas, por que isto não tem sido suficiente?. É claro, há alguns tipos de problemas que são sensíveis a simples intervenções instrucionais mas, provavelmente, bem menos do que pretendemos. Além do mais, as instruções parecem ter uma grande probabilidade de fazer com que os clientes caiam em uma armadilha, mesmo que essas armadilhas funcionem (Hayes et al, 1986b). Por exemplo, quando dizemos a uma pessoa o que fazer para comportar-se de uma maneira socialmente habilidosa, podemos estar colocando limite máximo sobre a excelência do desempenho que a pessoa possa ter. Eles estão muito ocupados seguindo a regra para conseguirem aprender à partir das contingências diretas (Azrin & Hayes, 1984).

Um tipo final de erro que é crucial neste enfoque é a inconsistência. Um terapeuta não pode esperar conseguir uma mudança permanente ou duradoura no contexto do comportamento do cliente se o contexto estabelecido na terapia fica mudando. Em um enfoque orientado em relação às técnicas, no qual diferentes técnicas estão disponíveis mais ou menos independentemente uma da outra, a inconsistência não é um grande problema. O distanciamento compreensivo é o enfoque mais ousado que procura alterar fundamentalmente o mecanismo básico do controle comportamental. Para isto, se requer uma maior consistência.

 

QUESTÕES CLÍNICAS COMUNS

RESISTÊNCIA

Em certo sentido, todo meu enfoque está orientado para lidar com os problemas da resistência. O cliente é, de certa maneira, resistente antes mesmo de vir à terapia. Por que o comportamento problemático não mudou quando as consequências negativas foram contactadas? Como já coloquei, acredito que usualmente este tipo de resistência vem de um problema do controle por regras.

No distanciamento compreensivo, a resistência é impedida pelo distanciamento do cliente, como um organismo consciente, do conteúdo do que nós experienciamos. Isto NÃO é feito para diminuir estas experiências, ou para fazê-las menos poderosas, importantes ou sentidas. O propósito da distância não é afastar os eventos do cliente, mas para dar-lhes espaço para experienciá-los completamente como eles são, sem tomá-los verdadeiramente pelo que eles dizem que são literalmente. Assim, por exemplo, tristeza é tristeza - nada mais nem menos - é algo a ser sentido, não é para fugir disso ou para ser controlado por isso. Muito da resistência é, realmente, um "control move" assim, o distanciamento pode, automaticamente, reduzir a resistência.

Ao enfraquecer o contexto de dar razões e a procura por explicações inúteis, o terapeuta é capaz de reduzir a habilidade para invocar as normas ou padrões sociais que são utilizados para justificar ou explicar a resistência. mesmo se uma razão grande é dada para a resistência, a questão ainda voltará: "Comprar essa regra funciona para você? Assim uma explicação pode ser grande e, mesmo assim, irrelevante, e não alguma coisa a ser seguida. A resistência não funciona. Quando enfrentamos isso e vemos nossas intenções de explicar nossa saída somente como mais comportamento, a defesa criada pela resistência desmorona.

Também impeço a resistência fazendo com que os clientes façam compromissos pessoais para mudar. Explico que não serei eu o prejudicado se seus problemas continuarem. Ainda pensarei bem deles como pessoa, apesar de que lamentarei o fato deles estarem paralisados. Assim, o compromisso não é comigo - é um simples reconhecimento e o conhecimento da forma como as coisas são. Quando um cliente admite que "X" não funciona e "Y" funciona, a pergunta simples é: "Você concorda em fazer o que funciona?" Se é assim, assim deverá ser feito. Quero deixar claro que eu não adianto que os clientes me dêem as razões pelas quais eles não podem fazer o que funciona. Se os clientes não concordam, então que assim seja - mas então eles devem ser honestos consigo mesmo acerca de o por quê eles estão aonde estão. Este tipo de elaboração e seguimento de regras é, essencialmente, uma questão de elaboração de TATOS e de rastreamento. Quando se retira as defesas verbais, como este enfoque o faz, as pessoas são levadas muito naturalmente a este tipo de controle por regras. Uma metáfora que algumas vezes utilizo é a de um motorista de ônibus. Os passageiros são os pensamentos e sentimentos. Eles dirão ao motorista (a pessoa que tem esses pensamentos e sentimentos) onde virar, e ameaçarão o motorista se ele não os obedecer, virão e o obrigarão a olhá-los. Tentar empurrá-los para fora do ônibus não funciona - e, além do mais, o motorista teria que parar o ônibus para tentar isso. A solução é o que "greyhound" (galgo) faz. O motorista põe um sinal em frente do ônibus dizendo onde está indo e depois vai até lá. Isso é chamado compromisso. Se os passageiros não gostam do destino ou do caminho, eles podem descer, mas descendo ou não, o motorista irá ao lugar indicado pelo sinal. O motorista só pode fazer isto, é claro, se ele não fizer um acordo com os passageiros de que eles se manterão fora da vista se o motorista for onde eles disserem.

Uma questão final não foi descrita ainda, mas também é fundamental para este enfoque. As pessoas têm uma longa história de engajar-se em análises formais. Eles explicam a calculam coisas. Eles também têm uma longa história de reforçamento social pela adequação de tais análises. Isto é o que é chamado "estar certo". Ao longo do tempo, estar certo fez-se um reforçador muito poderoso. As pessoas recrutam ativamente os membros da comunidade verbal para dar sustentação às suas análises, de tal forma que, o reforçamento por este comportamento é tanto penetrante quanto muito rico.

O problema com isto é que as consequências sociais de estar certo podem superar as consequências naturais do comportamento. Assim, trabalharemos frequentemente para manter a aparente segurança de nossas análises, mesmo se as consequências forem totalmente negativas. Por exemplo, se o marido tem o ponto de vista de que sua esposa está pressionando (screwing up) o relacionamento, ele pode necessitar manter o relacionamento pressionado, para manter a sua análise correta. Trabalhamos ativamente contra nossos próprios interesses porque nossos interesses estão divididos entre as consequências sociais de estar certos e as consequências naturais de comportar-se de maneira eficaz.

Eu lido com esta questão apontando este sistema, e pedindo para a pessoa que faça sua escolha. Se mesmo somente uma pessoa conhece a natureza do jogo, de certa forma o jogo termina. Por exemplo, uma vez um cliente veio à sessão terapêutica dizendo que ia se matar porque sua ex-mulher, de quem tinha se separado recentemente, estava morando com alguém. Eu fiquei bravo. Eu lhe disse: "Olhe, se você está tão interessado em fazer com que sua esposa esteja errada e você certo, a ponto de querer sacrificar sua vida, vá em frente. Mas eu quero que você saiba que ficará uma pessoa neste mundo que saberá a verdade - que sabe o que você está fazendo. Você pode até enganar sua esposa - ela pode mesmo "comprar" esta mentira - mas você e eu sabemos o que realmente está acontecendo aqui". Com isto, ele começou a chorar. A questão deslocou-se muito rapidamente para aquilo do que ele queria se defender, estando certo. Ele me deu sua arma. Anos depois, ele me disse que aquele tinha sido um momento decisivo em sua vida. Se nós não tivéssemos lidado com a questão do certo e do errado, previamente, eu não teria sido capaz de assumir e defender essa posição de maneira tão determinada. Ele teria pensado que eu estava dizendo que ele estava errado - e eu não estava fazendo isto. Eu estava somente dizendo que o que ele estava fazendo (tentando estar certo e fazendo com que outros estivessem errados) não estava dando certo para ele.

Isto mostra a estratégia geral que eu sigo quando a resistência emerge na terapia. Eu a enfatizo, incluindo a maneira na qual o que está sendo produzido por velhas programações que têm causado danos ao cliente em outras condições. Eu faço com que o cliente focalize os custos e corto os caminhos verbais de fuga. Procuro ter certeza de que o cliente veja que não o estou desafiando, mas ao sistema que o persegue. Assim, o cliente não está errado ao ser controlado por isto, entretanto, isto tem um custo. Tento ter certeza de que essa questão não desliza para a questão do cliente versus eu mesmo, porque é invariavelmente o programa do cliente versus o cliente. Então eu deixo o cliente escolher. ESCOLHER pode parecer uma palavra estranha para ser usada por um behaviorista, mas eu a considero apenas de maneira descritiva. O cliente escolhe. Isso é um comportamento, não uma explicação. Nós usualmente não conhecemos a explicação. Pessoalmente, gosto de usar a linguagem da escolha com os clientes porque permite que não haja justificativa ou explicação: escolhemos porque escolhemos, não escolhemos por determinadas razões. Algumas vezes dizemos, "É uma escolha livre". Isto pode soar mentalista, mas realmente é a maneira mais comportamental de falar. Se se "escolhe livremente", não há razões que se possa dar por fracassar na execução de um projeto quando se fala em escolhas. Assim, a palavra LIVRE em "escolha livre" mantém a conversação de escolha ao nível da descrição, uma vez que ela impede a habilidade de dar explicações. Descrição é prerrogativa a qual escolha pertence. Entre parênteses, este é um exemplo de como as palavras podem, literalmente, entrar em conflito com o behaviorismo e, mesmo assim sustentar funcionalmente mudanças comportamentais profundas por parte do cliente.

 

Generalizações e Manutenção

O enfoque à terapia que estou descrevendo, aplica-se a muitas situações na vida das pessoas. Quando você a usa completamente, os empregos, a escola, os amigos, o relacionamento, os hábitos de saúde, etc, são influenciados pela tendência de tentar usar estados mentais para explicar e justificar nossas ações. Eu descobri, repetidamente, que as principais áreas de generalização simplesmente emergem assim que a natureza da similaridade se torna evidente. Por exemplo, recentemente conclui meu trabalho com uma obsessiva-compulsiva que veio ver-me exatamente depois de sua segunda hospitalização psiquiátrica devido a sua desordem. Ela tinha muito medo de ferir outras pessoas, e tinha múltiplos rituais de conferir (checking). Por exemplo, ela refazia repetidamente seu caminho ao dirigir para verificar se não tinha atropelado alguém. A cliente já tinha recebido quase todos os tipos de terapia imagináveis, desde tranquilizantes à eletrochoque. Depois de seu tratamento, seu problema de 25 anos clarificou-se (ver Figura 2, cliente 1). Ela parou de tentar lutar contra a ansiedade. Depois que sua terapia concluiu, lhe pedi que falasse a uma classe de estudantes de pós-graduação da qual eu era professor, o que ela fez. Um estudante lhe perguntou: "Qual foi a coisa mais importante que o Dr. Hayes fez por você?". Ela respondeu: "A coisa mais importante, penso eu, foi que eu pensei que para ficar boa tinha que, de alguma maneira, nem mesmo pensar que eu poderia ter feito alguma coisa para ferir alguém. Eu não pensava que eu podia ter esses pensamentos e viver com eles. Eu pensava, vocês sabem, que "o pensamento não pode estar ali porque não posso viver com ele, de maneira que tenho que ter influência sobre eles". E, imediatamente, o Dr. Hayes disse: "Não precisa ser desse jeito. Os pensamentos, provavelmente, não diminuam nada. Você não pode pensar menos do que pensa agora, mas não é necessário que eles controlem você". E ele acrescentou que as únicas coisas que eu poderia mudar eram meu desejo de estar ansiosa e meu comportamento. Penso que foi aí que decidi que estava O.K. ser ansiosa e que era preferível, a praticamente matar meu eu cada vez que queria livrar-me da ansiedade, então, algumas vezes eu estava ansiosa e outras não".

Este tipo de "insight" é do tipo que parece generalizar-se naturalmente. Por exemplo, durante a terapia, à medida em que ela se faz mais desejosa de sentir ansiedade pelo que a ansiedade era realmente, ela repentinamente também começou a ser mais assertiva. Ela começou a levar coisas quebradas de volta às lojas, a lidar com problemas de relacionamento no trabalho e, em geral, a mostrar uma forma mais comovente de generalização. Todavia, gastamos muito pouco tempo trabalhando isto de maneira direta, na terapia. Quando lhe perguntei como é que estava pronta para ser mais assertiva, ela explicou que estava, simplesmente, mais desejosa de experimentar os pensamentos de que ele não deveria ser assertiva, os sentimentos de que seria desastroso ser assertiva, e comportar-se de acordo com a realidade de que ser assertivo funciona.

Eu encorajo este processo de quatro maneiras. Primeiro, ampliando deliberadamente o escopo dos tópicos terapêuticos, à medida que a terapia progride. Velhas questões que podem não ter levado o cliente à terapia, mas são, não obstante, irritantes, são levantadas e lida-se com elas. Segundo, permito que surjam conexões em terapia e tenho realmente vontade de desviar-me, periodicamente, à áreas que não estão associadas de maneira estreita com o tópico da terapia. Por exemplo, falo de boa vontade de velhas lembranças, questões de família, problemas financeiros ou somente acerca de qualquer coisa que o cliente levanta. Ao final, eles usualmente estão mais relacionados do que pareciam no início. Em certo sentido estou seguindo o conselho de Stokes & Baer (1977) de "treinar de maneira frouxa". Terceiro tento mostrar como cada questão é realmente a mesma coisa: aplica-se os mesmos princípios. À medida que novas questões emergem é difícil, às vezes, para os clientes observarem isto, mas depois de ter lidado com várias questões, da mesma maneira, a generalização faz-se mais provável. Em certo sentido, eles aprendem a estratégia e não somente o exemplo específico. Finalmente, faço com que muitos de meus clientes participem de um grupo, lá pelo final do processo terapêutico individual. O grupo é constituído por clientes mais antigos e clientes que entraram posteriormente na terapia. Esse grupo se encontra uma vez por mês, e tende a focalizar maneiras de ampliar o progresso que eles fizeram em outras áreas. Devido a uma mudança, eu tive que encerrar um grupo deste tipo depois de dois anos e meio. O último ano não foi gasto diretamente com a ansiedade, mas em questões escolhidas pelo grupo, tais como, amigos, dinheiro, sexo, trabalho, relacionamentos íntimos, etc. Examinando a relevância deste enfoque para as questões gerais da vida, os clientes parecem fazer-se mais capazes de generalizar à tópicos novos o que eles estão aprendendo na terapia.

Dada a sustentação por parte da cultura dominante, de razões e luta emocional, pensaríamos que a manutenção seria difícil, a partir deste enfoque. O reforçamento para o seguimento normal de regras, continua. Neste enfoque, o terapeuta não pode abordar os principais problemas de uma só vez. Porém, quando os clientes finalmente "rompem" as linhas inimigas, o problema parece mudar. A manutenção continua a ser uma problema, mas um problema surpreendentemente moderado. Uma vez que o sistema é visto claramente, é difícil retornar a ele por completo. É difícil acreditar 100% em uma crença, depois que ficar claro que uma crença é, somente, mais um comportamento. Os dois mecanismos que utilizo para a manutenção são o grupo que mencionei acima e sessões de encorajamento, à medida que são necessários. Cerca da metade de meus clientes me verão uma ou duas vezes no ano seguinte ao término da terapia, só para esclarecer algum ponto difícil de resolver. Usualmente, isto pode ser feito de forma rápida, porque eles simplesmente têm que fazer contato com o repertório estabelecido anteriormente na terapia. Por exemplo, um cliente agorafóbico (com mais de dois anos pós terapia) recentemente tivera um ataque de pânico em um cinema e, depois, rapidamente começou a deslizar para uma luta com a ansiedade. Em três sessões, realizadas em uma semana só, conseguimos reverter o deslize e descobrir que o ataque tinha sido deflagrado por algum tipo de luta que o precedera. Não foi necessário tratamento adicional.

 

A RELAÇÃO TERAPÊUTICA

Já tenho explicado por que o distanciamento compreensivo não é somente algo que possa ser apresentado como um conjunto de histórias. É necessário ter o terapeuta ali para modelar o cliente diretamente. Um relacionamento terapêutico parece muito importante. Mas, para modelar, também necessitamos ter algum poder social. Em minha opinião, uma das maneiras mais rápidas de ganhar isto é respeitar os clientes.

Os seres humanos têm problemas. Quando lidamos com nossos problemas de deficiências, surgem outros problemas chamados "desafios". Estes nunca param, e também não é necessário. Neste contexto, não há diferença real entre clientes e terapeutas. Não é uma questão de uma pessoa como um todo e de uma pessoa "quebrada". Não é uma questão daqueles que sabem e daqueles que não sabem. Em vez disso, é simplesmente mais fácil ver as armadilhas do outro e não as nossas próprias. Algumas vezes, eu apresento uma metáfora a meus clientes para ilustrar o ponto. Eu peço a eles que imaginem uma equipe escalando uma montanha. Do outro lado de uma profunda garganta, senta-se outro membro da equipe que está olhando o progresso de subir a montanha. Ele pode falar à equipe pelo rádio para avisar-lhes de blocos de pedra em seu caminho em direção ao cume da montanha. Se ele estivesse na montanha, ele estaria tendo, provavelmente, tantos problemas como os membros da equipe. A terapia é, frequentemente, assim.

O relacionamento terapêutico é, assim, estabelecido entre dois seres humanos, um dos quais está sustentando o outro não à partir de uma posição de superioridade, mas à partir de uma posição de perspectiva vantajosa. Respeito meus clientes - realmente os amo. Os valorizo como seres humanos e não vejo seus problemas como deficiências de sua parte. O tipo de relacionamento que isto fomenta naturalmente é um de sustentação, mas orientado pela tarefa - estamos aqui com o propósito. Uma de minhas clientes chamou isso, uma vez, de "coleguismo" Entendi o que ela queria dizer.

 

AMBIVALÊNCIA

O dicionário define a ambivalência como a existência de "sentimentos mutualmente conflitivos acerca de uma pessoa ou coisa". É uma questão clínica comum em todos os problemas: desde dificuldades maritais à desordens tais como, esquizofrenia ou personalidade limítrofe. Em uma abordagem contextual, a ambivalência é vista como problemática somente porque o contexto de literalidade faz com que os sentimentos pareçam literalmente conflitivos. A meta é permitir que o cliente experiencie os dois tipos sentimentos sem que um tenha que se impor sobre o outro e, ao mesmo tempo, escolher um curso consistente de ação, sem levar em consideração qual lado parece mais forte no momento.

Quanto isto funciona, pode ter efeitos dramáticos. Um de meus estudantes (Zamir Korn) tratou com sucesso um cliente que foi diagnosticado como portador de uma desordem de "personalidade limítrofe" (borderline). Ele tinha uma longa história de relacionamentos problemáticos e inabilidade em manter o emprego. Ele alternava-se entre querer estar perto das pessoas e odiá-las. Ele queria ter sucesso no trabalho, para estar totalmente aborrecido em pouco tempo depois. Ele tinha um auto-conceito extremamente negativo a maior parte do tempo. A ambivalência pode ser pensada em termos de analogia ao tabuleiro de xadrez. Era como se, algumas vezes, ele visse as coisas do ângulo das peças brancas e, algumas vezes, das negras - o que é chamado de "divisão".

A meta na terapia era ajudá-lo a ver ambos os lados à partir do "nível de tabuleiro" e, então, enquanto ele estivesse vendo ambos os lados, estabelecer um curso de ação. O cliente aprendeu a dar espaço para a ambivalência e fazer e manter compromissos. Próximo ao final da terapia, por exemplo, o cliente escolheu casar-se novamente com sua ex-esposa. Ele descreveu sua viagem de 4 horas para encontrá-la como cheia de "fantasmas e duendes" (pensamentos e sentimentos acerca de casar-se novamente ou não). Em vez de tentar lutar contra esses sentimentos, ele os admitiu e manteve seu compromisso. De fato, ele casou-se novamente e tem mantido seu emprego durante três anos. Seis das sete escalas no MMPI muito elevadas que estavam presentes no começo da terapia, diminuíram ao nível normal ao final do tratamento. Perto do final da terapia, o cliente leu um poema que ele mesmo tinha escrito e que descobria sua experiência terapêutica e que deixa clara a relevância desta abordagem da ambivalência.

Tenho vivido esta vida por 33 anos.

Tenho visto a alegria e tenho experimentado as lágrimas.

Tenho vivido com pessoas e tenho vivido sozinho.

Tenho sido preguiçoso e tenho posto mãos à obra.

Nunca segui muito minha intuição.

Minha vida tem estado cheia de indecisão.

Mas agora penso que tenho arranhado a superfície.

Do que eu sou e de meu propósito como um todo.

Odiar a mim mesmo não é realmente um crime.

Me sinto feliz e triste ao mesmo tempo.

 

ENCERRAMENTO

O final de algo implica um estado de coisas permanente ou solidificado. Na terapia, usualmente, isso não funciona dessa maneira. Quando nossos problemas são solucionados permanentemente?. Quando estão estabilizados?. Minha meta não é fixar as pessoas, mas conseguir que deixem de estar paralisadas. As contingências naturais moverão nossas vidas para frente. Assim, o "final" da terapia é o ponto no qual um processo de aprendizagem é estabelecido. Temos a esperança de que esse processo sempre continuará.

Eu tento facilitar o encerramento da terapia certificando-me que os clientes sabem que poderão voltar se for necessário, provendo recursos a longo prazo como o grupo e incrementando os intervalos entre as sessões de terapia, durante os últimos meses de terapia. Mas que tudo, porém, tento deixar claro o que o término da terapia é: ele é um processo e não o resultado.

 

SUCESSOS E FRACASSOS

Neste ponto, minha impressão é que o enfoque é realmente bem-sucedido em relações a desordens de ansiedade e depressão. Também o tenho utilizado com sucesso com o uso de drogas ou outros problemas de autocontrole. O tenho utilizado em caso de manejo com esquizofrénicos e como não pretendo que ela trate da própria psicose, tem parecido ajudar os clientes a serem um pouquinho menos controlados por pensamentos ilusórios (delusional) e alucinações.

É claro que nem todos os clientes serão responsivos a este enfoque. Os clientes que não sofrem considerável dor ou estão, de alguma outra forma, prontos para uma grande mudança, não darão ao terapeuta o espaço necessário para tal desafio fundamental na nossa perspectiva em relação às coisas. Por exemplo, fui incapaz de tratar um homem de negócios altamente bem sucedido que não podia urinar em público. Ele via sua própria vida de forma tão positiva que não tinha interesse em alterar a sua maneira geral de lidar com as emoções. Também falhei, porém com um enfoque comportamental mais tradicional, com este mesmo cliente. Apesar de alguns dos meus casos mais bem sucedidos terem sido com clientes obsessivos-compulsivos, outros parecem ter um sistema de controle verbal tão rígido que eu não pude "atravessá-lo" suficientemente para desempenhar o trabalho a contendo. Tenho, como a maioria dos outros clínicos, golpeando minha cabeça contra os muros das desordens de personalidade de todos os tipos, com apenas poucos sucessos, mas o fracasso, aqui, parece mais relacionado ao poder da desordem do que a um pobre ajuste a este enfoque.

As pessoas que houvem falar do distanciamento compreensivo pela primeira vez, frequentemente, acreditam que o enfoque poderia ser utilizado somente por clientes muito intelectualizados. De fato, tenho usado-o com sucesso com crianças bem novas (apesar de a linguagem ter que ser completamente mudada, elas entendem o processo muito rapidamente), e com pessoas não instruídas com Q.I.s limítrofes. Os clientes têm que desejar examinar questões básicas, mas parece não precisarem de graus incomuns de inteligência para conseguir isso. Poucos clientes não conseguem, em absoluto, relacionar as metáforas e com estes pareço ter muito mais dificuldade. Não sei exatamente o que distingue estas pessoas de outras. Sei que não é uma questão de status sócio-econômico ou qualquer outra variável demográfica óbvia, desde que tenho tido êxito com clientes com uma variedade de repertórios básicos. Parece haver uma espécie de rigidez no pensamento destas pessoas que não lhes permite ver o significado das metáforas. É como se tudo tivesse que ser tomado literalmente.

 

 

O IMPACTO DO DISTANCIAMENTO COMPREENSIVO

Tentamos avaliar este enfoque de diversas maneiras. A maioria dos dados que existem para sustentar a posição, já foram publicados, isto é, a variedade de descobertas básicas que parecem tornar esta análise plausível. Temos despendido algum tempo avaliando especificamente o enfoque terapêutico. Devido ao fato destes dados terem dado relativo apoio, a maior parte dos nossos esforços em pesquisa continuam sendo colocados no sentido de desenvolver os princípios básicos necessários para analisar o comportamento verbal desta maneira. À medida que temos aprendido mais sobre classes de equivalência, comportamento governado por regras, etc, nossas técnicas terapêuticas têm sido modificadas.

Temos desenvolvido dados de pesquisas de três tipos: de estudos análogos, repetições clínicas e estudos formais de dados comparativos.

 

ESTUDOS ANÁLOGOS

Um dos primeiros estudos que tentamos foi acerca da tolerância à dor (Hayes, Korn, Zettle, Rosenfarb & Cooper, 1982). Isto parecia um bom ponto de partida porque a medida comportamental é precisa, os estudos de tolerância à dor podem ser realizados com sujeitos análogos (analogue subjects), e parecia que a dor era frequentemente dada como uma razão para diversos comportamentos. Testamos este último pressuposto, apresentando uma descrição, a diversos estudantes universitários, de diferentes situações comuns nas quais a dor era usada como uma escusa. Por exemplo, descrevíamos uma situação na qual alguém concordou em ajudar a limpar o quarto que compartilha com outros, mas não mantém o compromisso. A razão dada é: "comecei a limpar o chão, mas meus joelhos doem". Foi pedido aos sujeitos para avaliar a validade da razão dada. Encontramos que razões desse tipo recebiam avaliações muito altas. Isto parece adequar-se às análises das razões dadas antes, e sustenta a utilização da tolerância à dor como uma tarefa análoga.

Nós convocamos estudantes universitários, testamos sua tolerância à dor através de uma tarefa de resistência ao frio, e depois os destinamos a três grupos: um grupo placebo (controle), um de enfoque congnitivo e um de distanciamento compreensivo. O grupo "cognitivo" era uma combinação de procedimentos apresentados na literatura (ver Hayes et al., 1982, para uma descrição mais completa). O grupo de distanciamento compreensivo incluía uma análise das razões dadas, do controle emocional e disposição. Não era pedido aos clientes comprometerem-se em relação à tarefa de tolerância. Os dados de todos os sujeitos são apresentados na Figura 9. 1. Como pode ser observado, havia uma diferença significativa na tolerância à dor entre os grupos, do pré ao pós-teste. O grupo "cognitivo" produziu uma melhora significativamente maior que o grupo "placebo" e com o grupo de "distanciamento compreensivo" apresentando um progresso significativamente maior que os outros dois grupos.

   Posteriormente tentamos utilizar o distanciamento compreensivo com um grupo grande para tratamento de problemas de estudos, mas sem sucesso. Parece como se um contato muito estreito entre o terapeuta (ou experimentador) e o cliente fosse necessário para evitar que o cliente utilize defesas verbais do tipo que o enfoque tenta enfraquecer.

   REPLIAÇÃO CLINICA

   Até a presente data tenho utilizado este enfoque, principalmente, com desordens de ansiedade, depressão, e outras poucas desordens (por exemplo, bulimia, desordens de personalidade) em minha prática particular. Alguns de meus alunos também têm utilizado este enfoque com clientes do mesmo tipo. Na figura 9.2 apresento os dados dos primeiros 12 clientes com desordens de ansiedade tratados desta maneira. Estes dados são as avaliações médias da ansiedade sentida em relação às diversas cenas particulares em uma escala de 1 (nenhuma ansiedade) a 10 (ansiedade total). As características destes pacientes são mostradas na Tabela 9.1. O quadro apresentado na Figura 9. 2 mostra resultados semelhantes ao quadro obtido através das medidas comportamentais e as medidas dos resultados clínicos gerais.


   RESULTADOS CLÍNICOS COMPARATIVOS

   Até hoje, foi relatado somente um estudo comparativo de resultados clínicos acerca de distanciamento compreensivo (Zettle & Hayes, 1984). Neste estudo, 18 mulheres clinicamente deprimidas foram designadas para tratamento através do distanciamento compreensivo. Além disso, à alguns dos clientes foram dadas tarefas comportamentais e a outros não. Os resultados foram bem consistentes. Na maioria das medidas, o distanciamento compreensivo era superior ao enfoque de Beck. Em uma das medidas, o distanciamento compreensivo foi menos efetivo. A figura 9.3, por exemplo, apresenta os dados para a Escala de Avaliação Hamilton, uma escala de avaliação de depressão baseada em entrevistas. Com esta escala, o distanciamento compreensivo foi significativamente superior tanto no final de um período de 12 semanas de terapia quanto ao acompanhamento posterior à terapia. Também, quando comparamos o grupo de distanciamento compreensivo com os dados dos sujeitos do estudo bem conhecido de Rush, Beck, Kovacs e Hollon (1977), o distanciamento compreensivo revelou ser superior.

   Naturalmente, ainda há muito a ser feito, mas os dados até o presente são suficientemente bons, de tal forma que, eu posso sentir que estou no caminho certo e que a análise deveria continuar para ser testadas e refinada. Infelizmente, este é um enfoque muito difícil para ensinar aos outros porque seus pressupostos e técnicas diferem muito da cultura dominante. Por esta razão, eu esperei até que pudesse apresentar a análise em um capítulo longo. Não obstante, sou realista em relação ao que é possível aqui. Enquanto alguém que está lendo este capítulo pode ter algumas boas idéias, não pretendo que um terapeuta seja capaz de usar um enfoque de distanciamento compreensivo somente com base neste capítulo. E nem acredito que um terapeuta cauteloso seja necessariamente convencido ou pela análise ou pelos dados. Eu acho que o que eu espero é que os leitores considerem a necessidade de novos enfoques à terapia, o possível papel que o bahaviorismo radical pode ter na organização de tal procura. Estas duas considerações, de fato, guiam minha abordagem à terapia. Uma vez que este livro trata do que os terapeutas do comportamento realmente fazem na prática clínica, se eu consegui mostrar aos leitores a maneira como me guio por essas considerações, eu atingi minha meta.

 

 

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